O léxico da língua verde

Veja – 11/06/2012

A onda ambientalista que vem crescendo desde os anos 1960 não se limita a mudar hábitos, consciências e modos de fazer negócios. Também recicla a linguagem, alterando o sentido de velhas palavras e criando novas expressões. Das mais científicas às mais marqueteiras, eis um glossário básico para acompanhar as conversas em clima de Rio+20

Ciclo de Vida

A análise do chamado ciclo de vida de um produto é uma metodologia complexa que procura determinar seu impacto ambiental total "do berço à cova", isto é, da matéria-prima ao descarte (ou reciclagem, quando houver), passando por manufatura, distribuição, uso e manutenção. Ela está para os métodos tradicionais dos relatórios de impacto ambiental como a física quântica está para a física de Newton.

Desenvolvimento sustentável

0 adjetivo sustentável existe há séculos, mas, como termo corrente do vocabulário econômico e ecológico, a data que aparece em sua certidão de nascimento é 1987. É daquele ano o chamado "relatório Brundtland”, o texto em que uma comissão formada pela ONU – e presidida pela então primeira- ministra da Noruega, Gro Harlem Brundtland – lançou as bases de um programa internacional para conciliar o desenvolvimento econômico e social com a conservação dos recursos naturais da Terra, de modo a não espetar a conta da atual produção de riquezas nas futuras gerações. 0 desenvolvimento sustentável foi o signo sob o qual transcorreu a Rio 92. Seu principal problema é, ainda hoje. ser uma daquelas belas ideias com as quais todos concordam, mas que se tornam um vespeiro na hora do desdobramento em medidas práticas. A atual pegada ecológica da humanidade aponta para um longo caminho à frente.

Ecologia

A palavra estreou num dicionário de português em 1928. segundo o Houaiss. Cerca de meio século, portanto, depois de ser criada pelo zoólogo alemão Ernst Haeckel como Ökologie (a partir do grego oikos, “casa, habitação"), para designar o nascente estudo das relações entre seres vivos e meio ambiente. A princípio um termo científico de uso restrito, caiu na linguagem comum nos anos 1960, com os primeiros movimentos da voga ambientalista. Em inglês, data de 1969 o primeiro registro do elemento “eco” como formador de novos vocábulos dotados de uma aura ambientalmente correta, como em ecoturismo, ecodesign, ecoeficiência etc. Abusaram tanto do truque que um dos tiros acabou saindo pela culatra: nasceu o ecochato

Efeito estufa

Há quem imagine que o efeito estufa é um problema. Na verdade, trata-se de um fenômeno – proposto como teoria pelo físico francês Joseph Fourier em 1824 e mais tarde confirmado experimentalmente – que viabiliza a vida na Terra. Os gases do efeito estufa devolvem à superfície do planeta parte do calor que, na ausência deles, se perderia no espaço. Ocorre que esse efeito vem se intensificando com a concentração crescente de dióxido de carbono, metano e outros gases na atmosfera, resultado da queima de combustíveis fósseis e do desmatamento. Como conseqüência, a temperatura média do planeta está em elevação. É um fato. Mas existem entre os cientistas vozes relevantes que pedem cautela em torno dos reais efeitos do aquecimento global e de como o ser humano o provoca. Assinado em 1997, o Protocolo de Kyoto representou um primeiro passo diplomático no sentido de controlar a emissão global de gases do efeito estufa. 0 maior problema é que os Estados Unidos, um dos países campeões da poluição, não o ratificaram.

Externalidade

Termo cascudo do jargão econômico que o discurso ambientalista vai popularizando. Uma externalidade é uma espécie de efeito colateral da geração de riquezas: um custo ou benefício que a produção de determinado artigo acarreta para terceiros e que, pelas leis do mercado, jamais se refletirá no cálculo de seu valor. Externalidades podem ser positivas ou negativas. No primeiro caso, um bom exemplo é um investimento eficiente em educação pública, que tem diversos tipos de impacto salutar na comunidade em torno da escola. A externalidade negativa mais típica é a poluição. Fórmulas legais como as do passivo ambiental têm se esforçado por “internalizar"’ tal custo, isto é, incorporá-lo à economia da produção.

Orgânico

A palavra veio do latim organicus. que tinha significado bem diferente: “relativo a instrumento musical”. Foi provavelmente por influência do francês que ganhou o sentido de “relativo aos órgãos dos seres vivos”. A expressão “agricultura orgânica” surgiu na Inglaterra em 1940, por oposição a “agricultura química”, para designar aquela que dispensava agrotóxicos e adubos químicos (e mais tarde sementes geneticamente alteradas). A princípio uma atividade pouco mais que artesanal, começou a se expandir comercialmente nos anos 1970. Hoje, como “eco" e “verde” , o adjetivo se reveste de conotações fetichistas e marqueteiras: ser orgânico significa ser mais caro, além de supostamente mais saudável, embora “o atual estágio das evidências científicas não corrobore esse ponto de vista", segundo a agência de alimentos britânica, a Food Standards Agency. Isso levou à proliferação em todo o mundo, nos últimos anos, de selos com variados graus de confiabilidade para atestar o que realmente merece ser chamado de orgânico.

Passivo ambiental

É o custo associado à degradação ambiental em que incorre uma empresa. Cobre de taxas e multas à recuperação de áreas poluídas, passando pela compra de equipamentos antipoluição exigidos por lei. A referência nesse campo é a legislação aprovada em 2004 pelo Parlamento Europeu, com base no princípio de que “o poluidor paga". A menos, claro, que tenha excelentes advogados. Mas a tendência internacional é fechar o cerco aos sujismundos.

Pegada ecológica

0 conceito foi criado nos anos 1990 por William Rees e Mathis Wackernagel, pesquisadores da universidade canadense de British Columbia, como medida do consumo de recursos naturais pelo homem em relação à capacidade da Terra para repô-los. Calcula-se que hoje a pegada total da humanidade seja de um planeta e meio, o que significa dizer que o consumo de recursos naturais excede em 50% a capacidade de reposição da Terra – um ritmo insustentável, portanto. Em geral, é uma medição que favorece países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento: o Brasil é um dos maiores credores do mundo nessa contabilidade.

Pecuária

A criação de gado é tão central na história da humanidade que a palavra latina pecuaria tem relação de parentesco com os vocábulos "pecuniário” e “pecúlio", distantes do vocabulário do campo e ligados à ideia de dinheiro. A explicação é simples: por milênios, a riqueza foi medida em cabeças de gado. É recente a ideia de que algo nesse esquema não cheira bem: em 2006, um relatório da ONU acusou o setor pecuarista de ser um dos maiores vilões do agravamento do efeito estufa devido aos gases emitidos por montanhas de esterco.

Reciclagem

0 ferro-velho, palavra existente em português desde o século XVII, é a prova de que reciclar – verbo que concentra a ideia de “submeter algo a um novo ciclo" – é uma ideia antiga. No entanto, na forma de programas organizados que envolvem governos, iniciativa privada e cidadãos comuns, a reciclagem viveu seus primeiros dias de glória durante a II Guerra Mundial. Tratava-se de reciclar sobretudo metal para municiar a indústria de armamentos. A partir dos anos 1970, a própria reciclagem se reciclou e, sob a lógica da ecologia, incorporou outros materiais, principalmente vidro, plástico e papel. 0 Brasil apresenta índices conflitantes nesse quesito: líder mundial em reciclagem de latinhas de alumínio, com bom desempenho também no reaproveitamento de papelão e garrafas PET, tem apenas 18% de seus municípios com algum tipo de coleta seletiva. Paradoxo do atraso: no Brasil, os principais atores da reciclagem, iniciativa de economia sofisticada, são os catadores de lixo, representantes do lumpesinato

Verde

A palavra está entre as mais antigas de nossa língua: vinda do latim virides, surgiu já no século X, época que é considerada uma espécie de pré-história do português. Além da cor, nomeava as matas e, por extensão, a "natureza" em geral. Mas foi preciso esperar a ascensão dos movimentos ambientalistas, nos anos 1960, para que a palavra começasse a ganhar projeção internacional com a acepção de “ecológico, que tem preocupações ambientais”. A organização Greenpeace (literalmente, “paz verde") foi fundada em 1971. Os primeiros partidos verdes europeus datam do fim daquela década. Hoje o sentido ambientalista de "verde" está tão consagrado que a palavra virou bordão publicitário. Todo mundo quer ser verde, o que leva governos e organizações não governamentais a criar uma profusão de “selos verdes" para certificar produtos e empresas que. segundo critérios variados, têm o direito de se proclamar assim.

Responsabilidade social

Outra boa ideia que corre o risco de ser engolida pelo excesso de esperteza. Mais que uma expressão da moda, a responsabilidade social – de preferência com o auxílio de outro adjetivo, ambiental – tornou-se o xodó da comunicação corporativa no terceiro milênio. Acredita-se que tenha poderes mágicos: se de fato há empresas socialmente responsáveis, também existem as que, com a ajuda de protocolos ensinados por profissionais especializados, dão publicidade máxima a bondades; mínimas em busca de uma reciclagem de imagem pública que garanta ficha imaculada a poluidores históricos, diplomas de mecenas a notórios filisteus etc.

FONTE: https://conteudoclippingmp.planejamento.gov.br/cadastros/noticias/2012/6/11/o-lexico-da-lingua-verde

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