O CÂMBIO SOB PRESSÃO

No mês, US$ 5,2 bi já saíram do país. Dólar vai a R$ 2,10, BC atua e moeda cai a R$ 2,039.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Num pesado movimento de saída de investidores estrangeiros do país, com o agravamento da crise europeia, o dólar comercial chegou a ser negociado ontem a R$ 2,106, o maior valor em três anos. Isso levou o Banco Central (BC) a uma nova intervenção no mercado: a autoridade monetária vendeu US$ 1,3 bilhão da moeda no mercado futuro – o chamado swap cambial tradicional – e impediu uma nova valorização. Com a atuação do BC, que soma US$ 4,1 bilhões desde a sexta-feira passada, o dólar fechou cotado ontem a R$ 2,039, em queda de 1,97%, a primeira baixa em nove pregões e o maior recuo em quatro meses.

Segundo dados do BC, na semana passada os investidores estrangeiros retiraram US$ 2,8 bilhões em aplicações do Brasil. Do começo do mês até a última sexta-feira, a saída de recursos financeiros – aplicações em ações e renda fixa – chega a US$ 5,2 bilhões. Comparando-se os primeiros 18 dias de maio com o mesmo período em abril, as retiradas saltaram 453%. A situação do fluxo cambial só não é mais grave porque o dólar alto favorece exportadores. O déficit global no mês está em US$ 1,5 bilhão, amenizado pela entrada de moeda por meio da venda de produtos brasileiros no exterior.

Para analistas, o futuro da moeda depende agora dos rumos da crise externa e da disposição do governo de seguir em suas intervenções. O agravamento da crise europeia, com a possibilidade real de saída da Grécia da zona do euro e a situação frágil dos bancos na Espanha, continuará a pesar nos mercados. Só em maio, os investidores estrangeiros sacaram da Bolsa R$ 3,1 bilhões, segundo dados da BM&FBovespa. É o maior volume mensal de saques desde outubro de 2008, no auge da crise financeira global, quando atingiu R$ 4,7 bilhões. E o dólar é considerado um porto seguro em momentos de turbulência e, por isso, se valoriza nos momentos de crise.

Mercado cobra retirada do IOF

Especialistas acham que ainda é cedo para falar em fuga de capitais, mas já trabalham com essa possibilidade se a Grécia deixar o euro. Para o economista Johny Kneese, da corretora Levycam, muitos investidores que vinham para o país atrás de uma rentabilidade maior – encontravam aqui os maiores juros do mundo – assumiam o risco inerente ao Brasil. Agora, eles encontram aplicações de menor risco lá fora e rentabilidade parecida:

– Isso pode prejudicar a queda dos juros no Brasil, porque o BC terá de lidar com mais um problema, além do impacto da crise no crescimento – diz Kneese, que após a atuação de ontem do BC espera um momento de alívio na alta do dólar.

Com a atuação do BC, o real foi uma das poucas moedas do mundo a ganhar terreno contra o dólar. A moeda americana se valorizou frente ao franco suíço (0,80%), ao peso mexicano (0,62%) e ao dólar canadense (0,46%). O euro bateu seu menor preço frente ao dólar em 21 meses, a US$ 1,2615.

O diretor de Política Econômica do BC, Carlos Hamilton Araújo, disse ontem que a autoridade monetária interveio porque identificou que o mercado de câmbio não estava funcionando adequadamente. Ele ressaltou, porém, que o BC não tem um patamar ideal para a cotação do dólar.

Para analistas, o avanço pode ser explicado por várias razões: além da fuga de investidores por causa da crise, a menor rentabilidade dos juros brasileiros e um erro de prognóstico do governo, que adotou medidas para proteger o mercado de uma enxurrada de dólares e permitir aos exportadores ganharem mais.

Para Sidnei Nehme, diretor da NGO Corretora, o BC não esperava a piora dos mercados financeiros com tal velocidade. Tanto que, um mês atrás, o BC atuou para elevar o câmbio ao patamar de R$ 1,90, acreditando que o dólar se estabilizaria nessa faixa. Mas a crise surpreendeu e a cotação passou de R$ 2.

– O governo esperava um tsunami de recursos para o Brasil por causa das medidas dos bancos centrais pelo mundo, o que iria provocar uma queda do dólar aqui. Mas essa onda não veio. O tsunami tem se mostrado na saída de recursos – diz Nehme.

Importadores antecipam compras

Entre fevereiro e março, o Ministério da Fazenda elevou o Imposto Sobre Operações Financeiras (IOF) para captações externas feitas por empresas em três e cinco anos e estendeu o IOF para posições acima de US$ 10 milhões no mercado futuro de dólar.

– Essas medidas inibiram a presença de investidores que vendem dólares no Brasil. Agora, muitos querem comprar dólar, e há poucos vendedores. Isso faz a moeda se valorizar mais rapidamente – explica João Medeiros, diretor da Pioneer Corretora.

Empresas importadoras e aquelas que têm dívidas em moeda estrangeira correram ao mercado para antecipar a compra de dólares, temendo que a moeda continuasse subindo e encarecesse seus custos. Essa demanda ajudou a pressionar o câmbio. André Carvalho, analista da corretora Futura, vê incoerências na política cambial brasileira:

– O BC está vendendo dólares ao mesmo tempo em que o Ministério da Fazenda inibe a venda de dólares com as medidas. O BC está jogando sozinho num time sem goleiro. É claro que o especulador vai comprar dólares e provocar a alta da moeda.

Segundo analistas, outros emergentes vivem situação parecida: o México vendeu dólares ontem pela primeira vez desde 2009.

FONTE: Adaptado de

Bruno Villas Bôas, http://global21.com.br/materias/materia.asp?cod=34785&tipo=noticia

http://www.jornalnh.com.br/charge/120512

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