Para o chefão da Mercedes, ‘a China salvou o capitalismo’

Dieter Zetsche, o presidente da montadora, fala sobre o paradoxo de produzir como nunca carros de luxo durante a crise, no maior país comunista do mundo

Fernando Valeika de Barros, de Detroit

Dieter Zetsche, presidente mundial da Mercedes-Benz (Thorsten Wagner/Getty Images)

"Um chinês bem-sucedido gosta de demonstrar seu sucesso, representado num automóvel de luxo. Na comparação com 2010, crescemos em todos os países emergentes"

Dieter Zetsche, 58 anos, nascido na Turquia, é o CEO da alemã Mercedes-Benz desde 2005 – assumiu o cargo depois de dirigir as operações da Chrysler, então parte do grupo, nos Estados Unidos. "Doktor Zetsche", ou "Dr. Z", como ficou conhecido, é o comandante-em-chefe de um plano que pretende fazer que a marca alemã, que patenteou o primeiro motor a combustão (lá se vão 126 anos…), recupere o topo entre os fabricantes de carros de luxo (hoje nas mãos da também alemã BMW). Isso inclui uma ofensiva com seis novos produtos, no ano passado, outro tanto este ano e uma parceria com a Renault-Nissan para fazer uma plataforma para carros compactos, que será compartilhada pelo Smart e o Renault Twingo, e novos motores. Zetsche trabalhou no mercado brasileiro e por enquanto descarta a volta da produção de automóveis na linha de montagem de Juiz de Fora, que produziu modelos Classe A nos anos 1990.

Dá para retomar a liderança em vendas no segmento de luxo a curto prazo? Faremos de tudo para isso. Queremos chegar a 2020 com 2 milhões de carros Mercedes e Smart produzidos mundialmente. Apesar das incertezas da economia, no ano passado vendemos 1,36 milhão de carros. É um recorde para a marca, desde que inventamos o automóvel, há 125 anos. Mas temos fome para ir mais longe: apresentamos o SL em Detroit e lançaremos seis modelos em 2012.

Stan Honda/AFP

A nova Mercedes-Benz SL, lançada em Detroit

Com a Europa em crise, quem puxou este número de vendas para cima? Dá para dizer que a China, literalmente, salvou o capitalismo. Nossas vendas naquele mercado não param de crescer. Um chinês bem-sucedido gosta de demonstrar seu sucesso, representado num automóvel de luxo. Na comparação com 2010, crescemos em todos os países emergentes. Também foi um ótimo ano nos Estados Unidos, apesar de a recuperação econômica não ter acontecido tão rápido como gostaríamos. Vedemos 267.000 carros, 17,5% a mais que em 2010. E o crescimento foi maior no segmento premium. Muitos destes carros foram produzidos em nossas linhas de produção americanas.

Qual a vantagem? Produzir localmente significa reduzir a exposição ao câmbio. Montar mais carros em nossas fábricas americanas ajuda a reduzir a exposição do dólar em relação ao euro em algo como 16 bilhões de dólares. É um bocado de dinheiro.

O senhor mencionou o plano de produzir 2 milhões de carros, crescimento de quase 80%. Como espera fazer isso? O caminho é ampliar o nosso portfólio de produtos. Ainda este ano, lançaremos o novo Classe A. E, mais para frente, faremos mais três carros para o público mais jovem. Muitos destes carros serão equipados com motores 4 cilindros, que produzimos em parceria com a Renault-Nissan, uma forma de juntar competências e cortar custos de desenvolvimento. Claro que sem descuidar de carros como a nova geração do cupê SL, que revelamos em Detroit, um carro com tecnologia para ser ágil, de um lado, e oferecer economia de combustível e menos emissões de CO2. Em duas gerações de produtos reduzimos o consumo em uma média de um terço para modelos similares.

Como foi possível? Trabalhando para evoluir em cada detalhe. A nova família de motores V8 oferece a mesma performance de um V12 da antiga geração, com o consumo de um 6 cilindros. Além de motores mais modernos, melhoramos a aerodinâmica de nossos modelos e recorremos a materiais mais leves. Mais que simplesmente fazer trocas, colocamos o material certo – alumínio, magnésio ou fibra de carbono – no lugar certo. Continuamos a investir forte em Pesquisa e Desenvolvimento para fazer carros seguros e que ofereçam prazer ao dirigir. Graças a isso, nossos engenheiros conseguiram fazer um SL cerca de 140 quilos mais leve que seu antecessor, que já era um peso leve. Em um outro front, trabalhamos na produção de modelos híbridos, elétricos e a hidrogênio.

O Classe A foi produzido no Brasil. O senhor se arrepende de ter deixado de produzir carros no Brasil? Não tivemos alternativa, já que a linha de montagem de Juiz de Fora produzia muito aquém de sua capacidade. O mercado brasileiro comportava uma fábrica de automóveis para uma produção de 7,000 Classe A por ano. A saída para ganhar dinheiro foi converter a nossa unidade em Juiz de Fora para a produção de caminhões, que estão vendendo muito bem, por conta do crescimento da economia. Se o topo da pirâmide social no país ficar mais largo poderemos pensar em voltar a produzir localmente. Esperamos que isso aconteça o quanto antes.

Até lá, então, apenas Mercedes importados para os brasileiros? Sim, apesar da dificuldade de importar, por enquanto esta é a única solução. Sem volume, perderíamos dinheiro montando estes modelos localmente.

Por que três marcas alemãs – Mercedes, BMW e Audi – são imbatíveis na produção de carros de luxo? Acho que é um bom exemplo de como competição acirrada entre empresas competentes pode criar produtos cada vez melhores. Muitas outras montadoras, de outras partes do mundo, tentaram entrar neste segmento, mas não conseguiram abalar esta supremacia. As três alemãs entendem este segmento e dominam 85% dele. E, se depender das nossas ambições, voltaremos a ser a marca número 1 nesta faixa do mercado.

Fonte: http://veja.abril.com.br/noticia/economia/%E2%80%9Ca-china-salvou-o-capitalismo%E2%80%9D

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