Pankaj Ghemawatt: “O Brasil ainda é muito fechado”

Pankaj Ghemawatt: "O Brasil ainda é muito fechado"

Autor(es): Por Tatiana BAUTZER, enviada especial a Honolulu
Isto é Dinheiro – 28/11/2011
Economista do IESE

O "mundo plano" livro de Thomas Friedman é a primeira imagem que vem à cabeça quando se ouve a palavra globalização. Pena que esse universo, em que a tecnologia aboliu as fronteiras e as distâncias, aproximando mão de obra e empresas, não existe.

O "mundo plano" do famoso livro do colunista Thomas Friedman, do jornal americano The New York Times, é a primeira imagem que vem à cabeça quando se ouve a palavra globalização. Pena que esse universo, em que a tecnologia aboliu as fronteiras e as distâncias, aproximando mão de obra e empresas em todo o mundo, não existe. É o que o professor Pankaj Ghemawat, do IESE Business School em Barcelona, chama de "globalela". Professor de estratégia global de uma das mais prestigiosas escolas de administração do mundo, Ghemawat fez carreira em Harvard, nos Estados Unidos. Estrela do encontro dos países da Cooperação Econômica da Ásia e Pacífico no Havaí, o indiano de 52 anos está numa cruzada para provar que ideias populares sobre a globalização são exageradas. Seu novo Índice de Conectividade Global DHL classifica a abertura de 125 países com critérios inovadores: além do comércio, mede investimentos, migração e fluxo de informações.

DINHEIRO – Por que o sr. chama de “globalela” as ideias mais comuns sobre globalização?
Pankaj Ghemawat –
Simplesmente, os dados econômicos não corroboram a visão de que vivemos num mundo interconectado, ou “plano”, como afirmou o jornalista Thomas Friedman. A maior parte da atividade econômica, que poderia ocorrer internacionalmente, ainda é concentrada em nível local. Do total de investimentos no mundo, menos de 10% são de empresas fora de seus países de origem. Menos de 5% de todos os telefonemas são internacionais. O total de imigrantes não chega a 3% da população mundial, mesmo percentual de 1910, e o de estudantes universitários estrangeiros, 2%. O indicador mais alto é o de comércio, mesmo assim de 30% do PIB mundial, menor do que se imagina. O nível de internacionalização é surpreendentemente baixo, como fica claro no índice de conectividade global que começamos a calcular neste ano.

DINHEIRO – Por que a percepção é tão distorcida?

Ghemawat – Alguns economistas me perguntam: “Por que, afinal, você se preocupa em escrever que esses conceitos estão errados? Nós sabemos disso!” Mas, por alguma razão, esse conhecimento não se transmite do meio acadêmico da economia internacional para o grande público. Há várias razões para que esta seja uma ilusão tão popular: uma delas é que todos pensamos experimentar a globalização na nossa vida diária. Nunca olhamos os dados concretos, só damos nossas opiniões. Há, ainda, uma fé exagerada na tecnologia. Outro dia, topei com um ensaio de George Orwell, escrito na década de 1940, em que ele já dizia não aguentar mais ouvir dizer que a última tecnologia aboliu a distância, de Henry Ford a David Livingstone. As tecnologias mudaram e hoje o fenômeno é a internet, mas há 150 anos as pessoas apontam para alguma tecnologia nova e dizem que ela destruirá a distância. A boa notícia é que ainda há muito espaço para aumentar a integração entre as economias.

DINHEIRO – O Brasil aparece em 68º lugar entre 125 países no ranking de conectividade global, que o sr. começou a calcular neste ano. Pior ainda, entre 2005 e 2010, perdeu 16 posições. Por que o País está nessa colocação?

Ghemawat – Eu me surpreendi com o quanto a economia brasileira é isolada, fechada. Acho que a grande razão é o volume de comércio, um dos critérios do índice e muito baixo no Brasil. As exportações representam apenas 10% do PIB e as importações, 9%. Esse índice coloca o Brasil lá embaixo no ranking, em 115º lugar. O que puxou o País para cima foi a distância das relações de comércio, porque o Brasil exporta commodities para a Ásia. Tenho estudado o Brasil desde a década de 1970 e fui testemunha de que por muito tempo o País teve problemas de balanço de pagamentos. Agora, como essas crises foram superadas, todos têm a impressão de que o Brasil é muito globalizado com os elevados saldos da balança comercial. Mas o que importa é que a exposição do comércio em relação ao PIB ainda é muito limitada.

DINHEIRO – Também há alguma influência microeconômica?

Ghemawat – Há outros fatores, como a dificuldade de fazer negócios, que ainda é muito grande para empresas estrangeiras. Conheço uma empresa indiana de software que tinha grandes planos no Brasil, e acabou desistindo. Pelo que converso com empresas estrangeiras, o ritmo da inflação de salários recente também tem sido uma fonte de preocupação. A legislação trabalhista também é muito complexa.

DINHEIRO – O que o Brasil poderia fazer para aumentar sua inserção global?

Ghemawat – O Brasil tem grandes companhias, conheço bem a Embraer e Odebrecht, que estudei em Harvard. Mas ainda há uma excessiva concentração na exploração de recursos naturais. É ótimo ter recursos naturais, mas isso, de certa forma, prejudica o crescimento de outros setores, especialmente o de empresas com capacidade de internacionalização. O Brasil precisa de mais empresas fora dos setores de commodities com condições de competir globalmente. Aliás, uma das coisas que me surpreenderam ao elaborar o índice foi constatar que a América Latina é a região menos internacionalizada do mundo: está atrás até mesmo da África Subsaariana. O Brasil tem interesse e precisa se esforçar para reverter esse padrão. O Mercosul parece ter sido inócuo para os fluxos de comércio. É necessária uma maior ênfase na integração, e isso deveria ser estimulado primeiro em nível regional. É preciso também melhorar a produtividade. Estudei bastante, por exemplo, o setor de varejo para um trabalho para a Associação Brasileira de Supermercados (Abras) e fiquei surpreso ao observar que o setor não ganhou produtividade nenhuma nos últimos anos. Houve alguma melhora nas grandes redes, mas no setor todo, muito pulverizado, não houve avanço.

DINHEIRO – O sr. defende controles de capital. Isso não é contraditório com uma posição favorável ao aprofundamento da globalização?

Ghemawat – De maneira nenhuma. A globalização e a regulação não se opõem. Os fluxos de comércio, de pessoas e informação são positivos e não deveriam ser desestimulados, pois não contribuíram em nada para acentuar a crise financeira. Mas os fluxos de capital realmente acentuaram os efeitos da crise, aumentando o contágio, principalmente dos Estados Unidos para o resto do mundo. Uma das poucas restrições à internacionalização que apoio é limitar os fluxos de capital de curto prazo. Devemos focar nesse tipo de regulação, que é necessária, e não deixar que a crise resulte em desestímulo à integração mundial, com medidas protecionistas, por exemplo.

DINHEIRO – Quando é necessário controlar os fluxos de capital?

Ghemawat – Acho que há alguns sinais de alerta, e um dos principais é o desequilíbrio da conta de capital em relação ao PIB. Qualquer número acima de 3% já é preocupante. Se chega a 4%, as coisas tendem a terminar mal, e se supera 5%, as coisas sempre terminaram mal, na história dos países. Em 2007, era assustador observar esse número superando 3%, 5%. Além disso, é preciso ter amortecedores. Os governos não devem gerir suas economias confiando em que os mercados estarão sempre abertos para financiar a dívida. Isso não é prudente para uma empresa, imagine para um país de oito milhões de habitantes, como a Itália. Se o mercado congelar por seis meses, o país quebra. Também é preciso ter mecanismos de curto prazo que contenham os ânimos em momentos de pânico, medidas como a suspensão da negociação instituída pela bolsa de Nova York, depois do crash de 1987, ou a proibição de venda de ações a descoberto nas bolsas europeias. Há quem argumente que esse tipo de providência é ruim porque interfere no funcionamento perfeito dos mercados. Mas mercados perfeitos não existem! De um ponto de vista mais estrutural e não episódico, sou favorável a uma taxa sobre operações financeiras como a que está sendo proposta pela União Europeia. É encorajador ver que até o FMI, quase tão conservador quanto o Vaticano, apoia controles de capital.

DINHEIRO – Os mercados emergentes conseguirão se isolar da gravidade da crise internacional?

Ghemawat – Os emergentes continuarão crescendo mais rapidamente que as economias desenvolvidas. Em viagens recentes à China e à Índia, percebi que as pessoas estão preocupadas com a queda dos níveis de crescimento econômico. Mas, é claro, na China, o crescimento cairá de 10% para 8%, e na Índia, de 8% para 7%, é outro o nível de preocupação. Mas é também preciso lembrar que é relativamente fácil crescer muito se a renda per capita é de US$ 1.500. Um crescimento de 10% acrescenta só US$ 150 anuais, não dá para ficar muito impressionado com altos índices sobre bases baixas. O fator positivo é que o fluxo de comércio Sul-Sul é o que mais cresce no mundo. Mas, evidentemente, eles não estão isolados. O mundo todo vai sofrer se houver uma recessão na Europa e nos Estados Unidos.

DINHEIRO – O euro vai se desintegrar?

Ghemawat – Dados os acontecimentos das últimas semanas, não duvido de nada… O teste crítico, no curto prazo, é se as taxas de juros para os bônus da Itália cairão dos atuais 7% para menos de 6%. Se não caírem, a União Europeia terá um problema muito sério. A questão principal é reestruturar o setor financeiro, o que até agora não aconteceu. As políticas na Europa estão sendo determinadas mais pelo Banco Central Europeu (BCE), que se preocupa em preservar os bancos da insolvência, do que por políticos preocupados com os efeitos na economia real. Como não se faz nada no sistema financeiro, o crédito não flui para as empresas, e é disso que precisamos para crescer. Eu moro na Espanha, e vejo claramente que lá as empresas estão sem acesso a crédito. Precisamos fazer o que for necessário, aplicar injeções forçadas de capital nos bancos, diluindo os acionistas atuais. É preciso parar de fingir que os bancos estão solventes e de deixar que eles fiquem sentados em cima do dinheiro. As autoridades estão relutantes demais em impor perdas aos acionistas dos bancos. Isso afeta toda a economia.

Fonte: http://clippingmp.planejamento.gov.br/cadastros/noticias/2011/11/28/pankaj-ghemawatt-o-brasil-ainda-e-muito-fechado/

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