Índia recorre à tecnologia para garantir desenvolvimento

Thomas L. Friedman
Em Nova Déli (Índia)

Índia tem tablet ‘mais barato do mundo’, vendido a estudantes por R$ 85

O mundo atingiu 7 bilhões de habitantes na semana passada e eu acho que encontrei metade deles na estrada de Nova Déli para Agra, aqui na Índia. Eles estavam a pé, de bicicleta, de lambretas. Estavam em picapes, carros velhos e espremidos em riquixás. Eles se desviavam de macacos, camelos e vacas. De alguma forma, entretanto, sem a ajuda de policiais ou semáforos, esse fluxo de humanidade que é a Índia moderna cuidava impossivelmente de seus negócios.

Mas quando sua mente está prestes a lhe dizer que este amontoado esmagador de pessoas certamente sobrecarregará todos os esforços para tirar a massa da Índia da pobreza, você começa a perceber um padrão: em intervalos de poucos quilômetros há uma torre de celular e um prédio de aparência nova brotando em meio ao caos controlado. E a placa na frente invariavelmente diz "escola" -escola de engenharia, escola de biotecnologia, escola de inglês, escola de administração e negócios, escola de computação ou escola primária. A Índia ainda é o único país que conheço onde você encontra um outdoor anunciando "diploma de física".

Todas essas escolas, mais 600 milhões de celulares, mais 1,2 bilhão de habitantes, metade deles com menos de 25 anos, são a esperança da Índia –porque apenas alavancando tecnologia e cérebros a Índia poderá realmente fornecer uma vida melhor para suas massas. Há milhões de motivos para que isso não aconteça, mas há um grande motivo para que possa. O previsto realmente está acontecendo: os jovens tecnólogos da Índia estão passando da administração das salas do fundo das empresas ocidentais, que terceirizam trabalho aqui, para a invenção das salas principais das empresas indianas, que estão oferecendo soluções criativas, de baixo custo, para os problemas da Índia. O falecido C.K. Prahalad a chamava de "inovação gandhiana" e eu encontrei muitos exemplos ao redor de Nova Déli.

Conheça Vijay Pratap Singh Aditya, o presidente-executivo da Ekgaon. Seu foco é os agricultores indianos, que correspondem à metade da população e constituem o que ele chama de "mercado emergente dentro de um mercado emergente". A Ekgaon desenvolveu um software que roda nos celulares mais baratos e oferece aos camponeses analfabetos um programa de orientação por voz ou texto que lhes diz quando é melhor realizar o plantio, como misturar os fertilizantes e pesticidas, quando dispensá-los e quanta água adicionar a cada dia.

"A Índia precisa aumentar a produtividade agrícola", explica Aditya, "mas nossas fazendas são pequenas e os técnicos do Ministério da Agricultura não podem atender a maioria delas. Então elas adotam métodos de plantio de que ouviram falar, o que leva a baixa produtividade e desertificação do solo". Usando computação em nuvem, a Ekgaon adapta suas orientações para o solo específico, cultura e condições climáticas de cada agricultor. Cerca de 12 mil agricultores já assinam (US$ 5 por um ano) e o plano é crescer para 15 milhões em cinco anos.

Conheça K. Chandrasekhar, o presidente-executivo da Forus Health, cujo foco é a "cegueira evitável" entre os pobres rurais da Índia. Um quarto dos cegos do mundo, cerca de 12 milhões, está na Índia, explica Chandrasekhar, e mais de 80% deles são cegos por falta de exames e falta de oftalmologistas nas áreas rurais. No passado, um exame abrangente exige múltiplos aparelhos caros de diagnóstico para exame das retinas dos diabéticos, catarata, glaucoma, problemas de córnea e refração, que causam 90% da cegueira evitável na Índia. Então a Forus inventou "um único aparelho portátil, inteligente, não invasivo para pré-exame dos olhos", que pode identificar todos os cinco desses grandes males e também fornecer um relatório automatizado de "Normal ou Precisa Consultar um Médico"; ele pode ser usado por um técnico treinado, que por meio de telemedicina liga pacientes a um médico.

"Nós trabalhamos com uma empresa holandesa de óptica e a Universidade do Texas nos apoia no desenvolvimento do negócio", acrescenta Chandrasekhar. "Nós estamos conversando com uma empresa brasileira interessada em fabricar nossa tecnologia e vendê-la na América Latina." Os terceirizados estão se tornando terceirizadores.

Conheça Aloke Bajpai, que, como outros em sua equipe jovem, trabalhou arduamente para empresas ocidentais de tecnologia, mas voltou para a Índia apostando que poderia começar algo –ele só não sabia o quê. O resultado é a iXiGO.com, um serviço de busca de viagem que pode rodar no celular mais barato e ajuda os indianos a reservarem as passagens mais baratas, seja um agricultor que deseja viajar de ônibus ou trem por poucas rupias de Chennai para Bangalore, ou um milionário que deseja ir de avião para Paris. A iXiGO agora conta com 1 milhão de usuários por mês e está crescendo. Bajpai usou um software gratuito de código aberto, o Skype, ferramentas baseadas em nuvem como Google Apps e marketing por rede social no Facebook para construir sua plataforma de software e sua empresa. Eles "nos permitiram crescer muito mais rápido quase sem dinheiro", ele disse.

Finalmente, há Nandan Nilekani, o ex-presidente-executivo da Infosys Technologies, a gigante de terceirização da Índia, que agora está liderando um esforço do governo para dar a cada cidadão indiano um número de identidade -uma iniciativa crucial em um país onde a maioria das pessoas não tem carteira de motorista, passaporte e nem mesmo certidão de nascimento.

Nos últimos dois anos, 100 milhões de pessoas se inscreveram para a identidade oficial. Assim que todos tiverem, o governo poderá lhes fornecer serviços ou subsídios –cerca de US$ 60 bilhões por ano– diretamente por celular ou conta bancária, sem burocratas ineptos ou corruptos desviando parte deles.

Tradução: George El Khouri Andolfato

Thomas L. Friedman

Colunista de assuntos internacionais do New York Times desde 1995, Friedman já ganhou três vezes o prêmio Pulitzer de jornalismo.

FONTE: http://noticias.uol.com.br/blogs-colunas/colunas-do-new-york-times/thomas-friedman/2011/11/08/india-recorre-a-tecnologia-para-garantir-desenvolvimento.jhtm

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