Fora da Copa das Confederações, Porto Alegre se prepara para 2014

Patrícia Comunello

JOÃO MATTOS/JC

Paralisação das obras de reforma do Beira-Rio comprometeu a realização da competição de 2013

Se o 20 de setembro, que marca a Revolução Farroupilha, é emblemático para o ego dos gaúchos, o 20 de outubro entrará para a história como o dia da decepção pela perda dos jogos da Copa das Confederações. Inexistência de contrato entre o Internacional e a construtora Andrade Gutierrez e obras do Beira-Rio paradas há quase quatro meses teriam embasado o julgamento da Federação Internacional de Futebol (Fifa), oficializado nesta quinta-feira. Autoridades e dirigentes do colorado estamparam nas fisionomias o estrago provocado pela decisão. A Capital não entrou nem em uma das duas vagas de sedes que podem ser acionadas pela Fifa e que ficaram com Recife e Salvador. As quatro sedes dos jogos previstos para daqui a dois anos serão em Brasília, Belo Horizonte, Fortaleza e Rio de Janeiro.

No rateio dos jogos em cada fase da Copa do Mundo de 2014, Porto Alegre ficou com cinco partidas, que se estenderão até as oitavas de final. Ao lado das justificativas, também despontou a sombra da Arena do Grêmio como um plano B, caso a reforma no estádio do Inter mantenha o impasse. O clube e a Andrade Gutierrez negociam os termos do contrato desde junho, enquanto a empresa tenta definir se firmará sozinha o acordo ou se terá um parceiro investidor na Sociedade de Propósito Específico (SPE). Dirigentes projetam que até o final do mês a minuta do contrato deve ser analisada pelos conselhos internos.

O presidente do Internacional, Giovanni Luigi, voltou a dizer, em entrevista coletiva, que a preparação visa à Copa de 2014 e que o Beira-Rio será o palco dos jogos. A razão: o anúncio dos jogos do Mundial. “Superamos as quatro partidas. Teremos mais uma”, justificou o dirigente. Durante o dia, em entrevistas, o presidente da Federação Gaúcha de Futebol (FGF), Francisco Noveletto, declarou que, em conversa com o presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e coordenador do Comitê Organizador Local (COL), Ricardo Teixeira, a pressão poderá aumentar sobre o clube gaúcho. Teixeira poderá convocar uma reunião com a direção do Internacional para as próximas semanas.

A construção da Arena, no bairro Humaitá, com conclusão marcada para 30 de novembro de 2012, é uma espécie de garantia se houver algum tropeço, como o impasse entre Inter e a empreiteira. Um dirigente tricolor que acompanha passo a passo a obra lembrou que Porto Alegre não pode arriscar perder o Mundial. “Se tiver de ser no Parque Ramiro Souto (Redenção), que seja. Não é uma questão de Grêmio ou Inter. Mas sim que seja aqui”, frisou o dirigente. Já sobre a responsabilidade na escolha para 2013, a mesma fonte indicou que “a cidade manifestou que desejava a competição e o proprietário do estádio garantiu que ia estar junto”.

O governador Tarso Genro lamentou o desfecho e atribuiu o resultado ao clube, indicando que houve “atraso na conexão com a construtora”. “Fizemos todo o esforço, mas não deu. É um problema certamente relacionado ao Internacional, mas vamos continuar trabalhando para que tenhamos uma boa Copa em 2014”, declarou Tarso, que é colorado e chegou a falar por telefone com Ricardo Teixeira, na sexta-feira passada, tentando convencê-lo a adiar a escolha de todas as sedes. “Há um prejuízo, mas não é significativo. Não acredito que isso atingirá o prestígio do Estado nem o prestígio do meu time”, precaveu-se o governador.

Sobre um virtual favorecimento para a Arena tricolor, o governador preferiu neutralidade. O prefeito da Capital, José Fortunati, admitiu tristeza com a notícia. “Mas eu já esperava. Seis meses atrás éramos franco favoritos, com parecer dos técnicos da Fifa, mas o Beira-Rio estava em obras, sem problemas”, recordou o gestor local. “As obras pararam e a modelagem financeira acabou não sendo ajustada. Mas não foi só isso, com certeza. Nos bastidores houve outras coisas”, sugeriu o prefeito, que cogitou razões políticas como fator de peso para o anúncio. O prefeito reforçou que aposta no Beira-Rio como estádio para 2014, e lembrou que, em caso de algum recuo, a opção gremista está no horizonte. O secretário extraordinário para a Copa na Capital, João Bosco Vaz, disse que o clube tem parte da responsabilidade e a construtora, outra. “Não estou indignado, mas com sentimento de perda. Trabalhamos dia e noite”, desabafou Vaz, que já esperava a notícia.

Em nota oficial divulgada em seu site, o Internacional tentou dirimir em pouco mais de mil palavras a sua condição diante do desfecho. A direção colorada descreveu desde as razões para a paralisação das obras, interrompidas em junho passado, após o anúncio da escolha da construtora. “O clube interrompeu os trabalhos para não ter de pagar por algo que ficará sob ônus do futuro parceiro.” Em relação à Copa das Confederações, o clube qualificou como política a escolha da Fifa. “Mesmo que o Beira-Rio seja a sede mais avançada, ficou de fora”. O comunicado ressaltou que, mesmo acalentando a competição de 2013, “o compromisso do clube sempre foi com a Copa de 2014”.

Cidades comemoram e lamentam decisão sobre escolha das sedes para torneio preparatório

Enquanto cidades como São Paulo receberam com festa o anúncio de sediar a Copa das Confederações de 2013, outras capitais, a exemplo de Curitiba, não demonstraram equivalente desânimo por ficar de fora da competição.

Além de ser um dos destinos do campeonato que servirá de teste para a Copa do Mundo de 2014, a capital paulista ainda recebeu a notícia de que vai sediar a abertura do maior evento esportivo do planeta, que foi comemorada por autoridades e operários que acompanhavam o anúncio oficial do calendário de jogos do torneio no canteiro de obras do estádio do Corinthians, o Itaquerão. “Estamos com toda infraestrutura, com todas as condições e com enorme confiança de que São Paulo dará muita sorte para o Brasil”, disse o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin.

Enquanto isso, em Curitiba, o anúncio provocou reações diferentes nos gestores de empreendimentos relativos à Copa. O secretário municipal para Assuntos da Copa, Luiz de Carvalho, não escondeu a decepção. “A região Sul foi totalmente desprezada”, lamentou. Já o secretário de Estado de Assuntos da Copa, Mário Celso Cunha, disse que a cidade nunca reivindicou o evento-teste de 2013. “Mas ficamos habilitados para isso”, afirmou. “A gente entende a parte político esportiva.”

Apesar de ter frustrados os planos de conseguir que Belo Horizonte fosse a sede da abertura da Copa do Mundo de 2014 ou da final da Copa das Confederações de 2013, o governador de Minas Gerais, Antonio Anastasia, considerou que a cidade foi “extremamente prestigiada” pela Fifa na definição do calendário oficial. No caso do Mundial de 2014, a capital mineira pode receber até dois jogos da seleção brasileira. Já no caso da Copa das Confederações, marcada para acontecer em junho de 2013, Belo Horizonte foi confirmada nesta quinta-feira pela Fifa como uma das sedes.

Turismo lamenta exclusão da Capital

A notícia de que Porto Alegre esta definitivamente fora da Copa das Confederações em 2013 foi lamentada por diversas entidades do setor privado ligadas às áreas de turismo, serviço e comércio. Para dirigentes e analistas, a Capital gaúcha não apenas deixará de ter ganhos econômicos importantes, mas também sofreu um grande revés na imagem como cidade capacitada para receber grandes eventos.

De acordo com Lucas Schifino, assessor econômico da Federação do Comércio de Bens e Serviços do Rio Grande do Sul (Fecomércio/RS), é difícil calcular o quanto o Rio Grande do Sul deixará de ganhar com a ausência da Copa das Confederações. No entanto, o analista arrisca uma estimativa em relação ao que considera o melhor cenário para atrair turistas estrangeiros ao Estado, que seria a realização de uma partida com a seleção do Uruguai.

“Segundo a prefeitura de Porto Alegre, um jogo do Uruguai aqui poderia atrair até 40 mil visitantes daquele país. Com base no gasto médio dos turistas na Copa do Mundo da África do Sul, e considerando o menor nível de renda dos uruguaios em relação a europeus e norte-americanos, podemos supor que eles gastariam cerca de R$ 30 milhões no Estado”, estima.

Schifino alerta que, no caso da presença de outras seleções, é mais complicado mensurar o valor, uma vez que ele depende da atratividade dos times. “Mas acreditamos que, se tivéssemos uma Espanha ou Itália jogando em Porto Alegre, contabilizando também os turistas brasileiros interessados nas partidas, o gasto do turista poderia chegar a até R$ 18 milhões”, aponta. A maior parte dessa receita seria gerada em hospedagem, alimentação e transporte.

Já o presidente-executivo da Federação de Convention e Visitors Bureau no Estado, Ricardo Ritter, acredita que pior do que os prejuízos econômicos é a perda de uma oportunidade para divulgar a imagem da Capital como uma cidade adequada para sediar eventos importantes. “Nós temos uma infraestrutura de turismo e hotelaria muito melhor que algumas das cidades escolhidas, essa seria uma grande chance para colocar o nome de Porto Alegre na vitrine mundial”, destacou.

Luiz Nozari, presidente do Sindicato dos Taxistas de Porto Alegre (Sintáxi), esperava que a competição de 2013 fosse usada como um teste da capacidade de trânsito da Capital em grandes competições esportivas. Para a Copa do Mundo de 2014, a entidade analisa a possibilidade de trazer até 500 táxis do Interior para contribuir com a maior demanda na cidade. “Sem a Copa das Confederações não teremos como avaliar melhor essa necessidade e a decisão final terá que ser feita sem um teste.”

De acordo com o presidente do Sindicato da Hotelaria e Gastronomia de Porto Alegre (Sindpoa), José de Jesus Santos, a notícia foi um “balde de água fria” para o setor, que está buscando incentivar o treinamento e qualificação de profissionais para melhor atender visitantes durante eventos de grande porte. Para o dirigente, é preciso mais ação para garantir a Copa de 2014 na cidade. “Achar culpados, nesta hora, não adianta. Precisamos nos articular melhor para não perdermos os demais prazos”, concluiu.

A necessidade de que o Internacional cumpra os prazos para obras do estádio Beira-Rio impostos pela Fifa também foi apontada pelo presidente da Federasul, José Paulo Cairoli. O dirigente, no entanto, lembrou que a Capital havia se planejado apenas para sediar a Copa do Mundo de 2014, e não se preparou efetivamente para a outra competição que acontecerá um ano antes. “Deixamos de ganhar, geraria renda nas áreas de serviço e comércio, mas o fato é que a Copa das Confederações não estava na programação de Porto Alegre”.

O presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) de Porto Alegre, Vilson Noer, afirma que a Copa das Confederações seria uma oportunidade de potencializar o turismo da Capital. Além disso, disse o dirigente, Porto Alegre não poderá testar os investimentos em obras de infraestrutura que serão feitos para a Copa do Mundo de 2014. “Será uma perda irreparável para os setores de comércio de bens e serviços. E o que talvez tenhamos mais a lamentar é que a responsabilização deste episódio não vai recair sobre aqueles que efetivamente deveriam dar uma resposta à sociedade gaúcha”, comentou Noer.

Fifa divulga em Zurique tabela incompleta da Copa das Confederações de 2013

O evento desta quinta-feira na Fifa acabou por escancarar o despreparo do País na organização do torneio. Isso desmoraliza o governo federal, que havia prometido nove estádios prontos já para 2012. A entidade anunciou o calendário final da Copa do Mundo de 2014 e tinha também a meta de oficializar o programa para a Copa das Confederações de 2013. Mas, sem saber ainda quais estádios estarão prontos dentro do prazo, optou por uma saída que demonstra a desconfiança em relação ao País: divulgou um calendário incompleto do evento-teste para o Mundial.

Para participar da Copa das Confederações de 2013, os estádios deveriam estar prontos no final de 2012. Os engenheiros da Fifa avaliaram que apenas Fortaleza, Belo Horizonte e Brasília cumprirão essa meta. Nem mesmo o Maracanã respeitará esse prazo. Mas, por ser no Rio de Janeiro, acabou sendo aceito. Diante da falta de estádios, a Fifa não teve alternativa senão a de adiar em quase um ano a divulgação do calendário definitivo. “Esse evento é um teste para a infraestrutura do País”, disse Joseph Blatter, presidente da Fifa.

Nos bastidores, os cartolas da entidade e engenheiros alertam que o Brasil terá de mudar de forma radical seu comportamento para garantir que o prometido em relação aos 12 estádios da Copa em 2014 seja cumprido. Quatro anos depois de receber o direito de sediar o Mundial, o País sequer tem orçamento definido para o evento e as obras, principalmente as de infraestrutura, penam para ganhar ritmo. A decisão desta quinta se constituiu ainda em um golpe no Palácio do Planalto.

São Paulo recebe a abertura e Rio a final

A Fifa finalmente acabou com as especulações e anunciou que São Paulo será a sede da abertura da Copa de 2014. Ao divulgar o calendário oficial das partidas do Mundial, em evento realizado em Zurique, na Suíça, a entidade confirmou que o novo estádio do Corinthians, o Itaquerão, receberá o jogo inaugural. E, como já era previsto, o Maracanã, no Rio de Janeiro, foi escolhido como palco da final, assim como aconteceu em 1950. A decisão do terceiro lugar será em Brasília. Porto Alegre receberá cinco jogos, quatro na primeira fase e um nas oitavas de final (ver quadro).

Ao todo, foram elaboradas 57 versões da tabela para chegar ao desenho definitivo. Segundo a programação divulgada pela Fifa, a seleção brasileira atuará em São Paulo, Fortaleza e Brasília na primeira fase da competição. Depois, se for confirmado o favoritismo e acabar em primeiro no grupo, jogaria em Belo Horizonte, nas oitavas de final, em Fortaleza, nas quartas de final, novamente em Belo Horizonte, na semifinal, e no Rio, na final. Ou seja, o Maracanã só receberá a seleção se esta chegar à decisão.

A Fifa também definiu todos os horários dos jogos do Mundial. A partida de abertura, marcada para o dia 12 de junho, será às 17h (horário de Brasília). Na primeira fase, serão quatro horários diferentes: 13h, 16h, 19h e 22h (sempre no horário de Brasília). Nas oitavas e nas quartas de final, serão às 13h e às 17h. Nas semifinais e na disputa do terceiro lugar, às 17h. E a grande final, no dia 13 de julho, acontecerá às 16h.

Durante o anúncio, a entidade criticou indiretamente o atraso no cronograma das obras dos estádios brasileiros ao não divulgar um calendário completo da Copa das Confederações de 2013. A entidade escolheu apenas quatro sedes: Rio de Janeiro (final), Belo Horizonte, Fortaleza e Brasília (abertura). Recife e Salvador ainda poderão ser incluídas, mas tudo depende do andamento das obras. Para receberem os jogos, os estádios terão que ser concluídos até junho do ano que vem.

Cinco equipes já estão classificadas para o torneio de 2013: o Japão, campeão asiático; o México, campeão da Concafaf; o Uruguai, que venceu a Copa América, além do Brasil, anfitrião, e da Espanha, atual campeã do mundo.

Ingressos devem ser acessíveis a todos

A venda de ingressos para o Mundial de 2014 só começará após a Copa das Confederações, ou seja, na metade de 2013. A previsão é de que 3,3 milhões de bilhetes sejam disponibilizados. No entanto, ainda não há a definição de valores.

“Estamos em meio a conversas com o governo brasileiro e o Comitê Organizador Local para garantir que brasileiros de todas as classes sociais tenham chances de assistir às partidas da Copa do Mundo. A nossa missão é estabelecer um nível de preços que seja acessível para todas as pessoas”, afirmou o diretor de marketing da instituição, Thierry Weil.

FONTE: http://jcrs.uol.com.br/site/noticia.php?codn=76488&fonte=capa

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