Kiev, capital da Ucrânia, vive seu 20° verão de liberdade

 29 de setembro de 2011

Haroldo Castro

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Mesmo com duas paradas longas para os trâmites fronteiriços entre a Belarus e a Ucrânia, a viagem no trem noturno foi confortável. Os dois belarrussos cinquentões, que estavam no mesmo compartimento, dividiram minuciosamente uma garrafa de vodca de 750 ml e dormiram como bebês. Certo, eles roncaram bastante, mas meu tapa-ouvidos conseguiu isolar os sons mais graves.

Chego na estação de Kiev em pleno dia de verão. O céu está limpo e as folhas das árvores continuam verdes. As mulheres vestem roupas floridas, leves e esvoaçantes. Os decotes ousados são fartos – na verdade, devido à generosidade das formas ucranianas, noto que o número de decotes nos seios aqui é bem superior ao que se vê normalmente nas ruas brasileiras. No verão, a Ucrânia parece ser mais tropical que o Brasil – pelo menos, neste quesito.

Começo minha jornada em Kiev no mercado de frutas Besarabsky, erguido em 1910.

Depois de comprar meio quilo de damascos e de cerejas, aproveito o domingo ensolarado para caminhar pela Avenida Khreschatyk. Esta é a artéria vital da capital e, nos finais de semana, está fechada aos veículos; as oito faixas estão reservadas apenas aos pedestres e às bicicletas. A avenida é majestosa: as calçadas são largas, as lojas de grife tomaram os melhores espaços e os prédios são volumosos. Quiosques requintados vendem sorvete e café.

Khreschatyk teve seus momentos de tensão. Durante a II Guerra Mundial, quanso os soviéticos bateram em retirada, deixaram um “presente” ao exército nazista alemão que entrava na cidade: toda a avenida estava minada. O resultado foi a destruição quase que total dos prédios – o que explica a existência de tantos edifícios stalinistas dos anos 1950 ainda hoje.

A Avenida Khreschatyk, a principal de Kiev, fica reservada aos pedestres durante o fim de semana.

Após um quilômetro vagando sem compromisso, alcanço Maidan Nezalezhnosti, a Praça da Independência. Palco de inúmeras manifestações políticas durante as últimas duas décadas, o local é parada obrigatória para as crianças que querem se banhar nas fontes e os namorados que insistem em jurar amor eterno, ao lado de um imenso coração de bronze. O ambiente é dominado por um imenso pilar erguido em 2001 que comemora os dez anos de independência do jugo soviético.

Uma ruela sobe em direção à catedral Santa Sofia, uma das obras primas de Kiev. O exterior da catedral (erguida no século 11) está em construção, mas a visita da igreja – hoje transformada em museu – é de deixar sem fôlego pessoas de qualquer cultura. As pinturas que decoram todas as paredes do templo foram perfeitamente restauradas.

 Do alto da Torre de Santa Sofia, a vista do monastério e da torre de São Mikael é magnífica.

O monastério que honra o arcanjo Mikael, padroeiro da cidade, começou a ser construído há mais de nove séculos, em 1108. Mas em 1934, durante a ocupação soviética e o afã da purga stalinista, os dominadores russos decidiram esquecer a riqueza histórica e concluiram que o monastério não continha nenhum valor arquitetônico. E demoliram tudo! Após a independência da Ucrânia, o ato foi considerado como crime e o novo governo decidiu reconstruir todo o complexo. A nova catedral S. Mikael, réplica da que existiu, foi inaugurada em 1999.

Às margens do rio Dnieper, Kiev é uma cidade verde e seus parques acolhem muitas árvores frutíferas. Cheguei a colher e comer maçãzinhas verdes, suculentos damascos, ameixas mirabelas doces e pequenas peras. Os jardins da cidade servem também como cenário para as sessões de fotos de casamento.

Uma noiva confortavelmente sentada em um banco do parque Volodymirs’ka sorri com as palhaçadas dos amigos do noivo.

A poucos quarteirões de São Mikael está a igreja de Santo André. Por estar em renovação – as fundações ameaçavam ruir – só consigo ver de fora a arquitetura rococo barroca tão chamativa. O templo do século 18 está no topo de um morro que domina o centro de Kiev, em um dos bairros mais antigos da cidade, Podil.

Se, para os que conhecem Paris, a Avenida Khreschatyk é considerada como o Champs Elysées ucraniano, a igreja de Santo André equivale à subida de Montmartre.
Ao redor do monumento, um emaranhado de quiosques e lojas criaram um verdadeiro mercado das pulgas, onde capacetes de guerra e medalhas da era soviética misturam-se com artesanatos locais de madeira e camisetas do clube Dinamo de Kiev. A Descida de Santo André é uma bom retratodo que é hoje a capital da Ucrânia, um país que acaba de festejar seus 20 anos de independência.

Pratos de madeira pintados à mão são oferecidos aos visitantes que passam pela Descida de Santo André, a Montmartre de Kiev.

FONTE: http://colunas.epoca.globo.com/viajologia/2011/09/29/kiev/

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