Dificuldade para planejar a produção aumenta os custos das empresas

Clarisse de Freitas

Quanto custa, para a indústria brasileira, receber as matérias-primas, separar, estocar, levar à linha de produção, embalar e expedir? Em épocas de administração ultraprofissionalizada e de sistemas de controle extremamente sofisticados, parece estranho que a indagação sobre o custo médio da intralogística tenha respostas tão discrepantes quanto 16% e 25%.

Esta, entretanto, é a realidade constatada pela primeira pesquisa de mercado, feita pelo Ibope a pedido da Imam Feiras e Eventos. A empresa é promotora da Movimat, Feira de Intralogística – Embalagem, Movimentação, Armazenagem, Tecnologia da Informação e Serviços, realizada no início deste mês, em São Paulo.

A resposta direta dos empresários brasileiros à questão indicou uma média de 16%. Porém, os dados apurados pela mesma pesquisa mostraram que, na verdade, a intralogística tem um peso médio de 25% no custo do produto final. A subestimação se dá, de acordo com Eduardo Banzato, diretor da Movimat, pela falta de entendimento de todos os fatores que estão inclusos no conceito de logística interna.

O executivo explica que, embora 60% dos entrevistados digam ter familiaridade com a intralogística e 20% afirmem usar um sistema deste tipo diariamente, grande parte ainda considera apenas os custos de movimentação e estocagem, quando há outras etapas que também têm impacto direto no processo logístico.
Os especialistas ouvidos pela reportagem foram unânimes em apontar que a adoção de um sistema planejado de intralogística pode ter um efeito direto na redução dos custos, no aumento da produtividade e, por consequência, nos lucros. Em casos onde a parcela da logística interna corresponde a 15% do total e as mudanças representam um aumento de produtividade de 20%, o impacto é de até 4% na redução do custo final. Mas o ganho de espaço, a diminuição de estoques internos e a aceleração no tempo médio de produção são outros indicadores para o êxito de um projeto deste tipo.

São justamente esses aspectos indiretos os mais significativos para a adoção de intralogística em outros segmentos além do industrial, como a construção civil. Quem aponta os benefícios é o engenheiro da Odebrecht Newton Coelho, responsável pelas obras do Consórcio Nova Via, que faz a expansão do Trensurb entre São Leopoldo e Novo Hamburgo. “Em diversas etapas chamamos empresas parceiras para transferir as instalações de apoio ao canteiro de obras ou suspender materiais com guindastes. São trabalhos que a empresa teria condições de fazer por conta própria, mas não é o foco aqui e ganhamos agilidade ao contratar terceiros”, disse ele.

Marcelo Murta, diretor comercial da Abrange, empresa terceirizadora de intralogística, explica que a logística interna classifica todas as atividades de movimentação dentro do ambiente produtivo, do recebimento físico e fiscal até a expedição e a emissão da nota, no caso de instalações industriais.

No meio do caminho estão a conferência, o manuseio, o processo de pedidos nos almoxarifados, o contato com fornecedores, o acompanhamento do recebimento em linha, o repasse entre as áreas, a movimentação interna dos produtos, a retirada do material acabado, a separação, a conferência, a embalagem e o carregamento. Todos os sistemas de controle e gestão, como softwares, etiquetas inteligentes, frota de empilhadeiras e a própria configuração do layout da fábrica também fazem parte do aprimoramento logístico.

A pesquisa, que ouviu representantes de 70 empresas de 14 segmentos diferentes, nas cinco regiões brasileiras, mostrou que a maior parte dos gestores, 56% deles, ainda faz esses procedimentos internamente, com equipes e recursos próprios. Os demais, 44%, terceirizam ao menos alguma parte do processo intralogístico. Dentre os que delegam, 30% contratam prestadores de serviços para fazerem etapas que correspondem de 6% a 10% do processo total.

Como esclarece Banzato, não é a contratação de um prestador de serviços que identifica a adoção de um sistema de intralogística, mas sim o planejamento de todos os trabalhos, de forma coordenada com aquelas tecnologias que se mostraram as soluções mais inteligentes para o caso específico de cada empresa. “Em um país como o nosso, onde as deficiências de infraestrutura de estradas, portos e aeroportos são grandes, a intralogística desponta como uma forma de aumentar ganhos sem depender de decisões e investimentos do governo”, avalia Banzato.

Fábrica fica 25% maior e 20% mais produtiva sem mudar as instalações

Para garantir a capacidade de atender às necessidades crescentes do comércio varejista, a Antilhas Embalagens, de Santana do Parnaíba (SP), decidiu investir em logística interna durante todo o ano de 2011. O passo inicial foi definir a linha de trabalho: terceirizar ou contratar uma consultoria para executar as mudanças com a equipe interna. “Trabalhamos com embalagens de papel, cartão e plástico, voltadas para o varejo e a indústria de cosméticos. Estes segmentos têm uma sazonalidade muito grande, com picos nas datas comemorativas, como Natal e Dia das Mães. Por causa dessa característica, acompanhada pela nossa produção, optamos por buscar uma solução interna, com a ajuda de um consultor”, disse o diretor de operações da empresa, Carlos Sanches.
O executivo explica que as empresas terceirizadoras apresentaram orçamentos baseados num dimensionamento adequado para os períodos de pico, “o que tornaria o serviço 20% mais caro quando avaliamos a média de custo que considera também os ‘vales’ da produção”. Para melhorar a produção, a empresa criou uma área de Planejamento Logístico, que cuida do recebimento dos insumos, das 90 máquinas de produção, das empilhadeiras e das palleteiras. Este setor integra toda a cadeia produtiva interna e determinou mudanças no layout da fábrica. O processo começou pela área de armazenagem de produtos acabados, onde os racks, que tinham 5.800 posições pallets, foram substituídos por porta-pallets de profundidade dupla. Dessa forma a empresa ganhou 67% mais espaço, um total de 8.700 posições.

Entre agosto e dezembro, o mesmo tipo de ajuste deverá ser feito na área de produção, para diminuir movimentações internas e aumentar a rapidez no atendimento dos pedidos. O melhor uso do espaço físico fará com que “sobre” uma área correspondente a 25% da área total, onde serão instalados os equipamentos comprados para aumentar a capacidade produtiva ao longo de 2012. “As mudanças alcançaram, também, a forma como utilizamos o software de controle, que agora tem uma aplicação mais intensa”, explica Sanches. “Com isso, poderemos reposicionar pessoas para a operação dos equipamentos novos ou para o terceiro turno, aberto nas épocas de pico. Contratamos menos e levamos 20% menos tempo para produzir”, comemora Sanches.

Solução para as empresas é customizada

A definição do melhor sistema de logística interna depende da correta identificação das características e necessidades da empresa. A avaliação deve chegar a um nível de detalhe que, segundo o diretor da Movimat, Eduardo Banzato, muitas vezes escapa do foco até mesmo dos profissionais especializados em logística. “No início dos anos 1980, o grande desafio era mostrar que investir em logística fazia diferença. De lá para cá, o tema ganhou espaço e foi ampliado no conceito de supply chain. Muitos profissionais buscaram se formar em logística, mas essa é uma área do conhecimento muito abrangente e as pessoas não conseguem se aprofundar. São formados profissionais generalistas, que conseguem ter uma visão sistêmica, mas relegam decisões importantes ao segundo plano”.
Por isso, o executivo indica a necessidade de ter em mãos dois levantamentos importantes para fazer um estudo integrado: o conhecimento profundo dos procedimentos da empresa e um panorama das diversas ofertas do mercado, que vão de equipamentos e softwares à prestação de serviços terceirizados. Justamente por isso, Banzato afirma que empresas que já passaram por processos de certificação, como a implantação de ISO, têm mais facilidade em identificar os pontos onde se pode reduzir desperdícios e aprimorar a utilização de recursos. “Pode existir solução de armazenagem sofisticada, automatizada e muitas vezes não se viabilizar quando se faz um estudo integrado. Uma solução menor, mas integrada a outros recursos, pode ser melhor, dar mais resultado para um investimento menor. O inverso também é realidade. O estudo é importante para que a questão do preço individual de um equipamento ou software não deixe de fora da análise uma boa opção”, explicou.

Segundo ele, muitas empresas preferem investir em uma solução barata, quando uma solução integrada e automatizada que poderia dar retorno muito maior é deixada de fora do “radar” dos gestores por ter um preço alto ou, simplesmente, pela suposição de que um sistema sofisticado custa caro. “Perdem grande oportunidade”, conclui.

Para o executivo, intralogística “nunca é solução de prateleira, a customização é o diferencial. Até em um escritório, se formos pensar nas atividades de deslocamento, de acesso a documentos, na agilidade com que se acessam ou no tempo que se perde procurando, todos esses dados estão ligados a recursos de intralogística.

Podemos pensar em soluções como a instalação de uma estante inteligente, que mostre por luzes onde está determinado documento. Dá mais agilidade à atividade administrativa”. Banzato afirma que esse setor tem crescido a taxas de beiram os 100% ao ano. Com isso, o número de empresas de terceirização e consultores que oferecem os serviços de análise e projeção de soluções customizadas é cada vez maior.

Terceirização é uma opção quando a logística interna envolve grandes distâncias

O executivo Celso Cruz define seu trabalho como a coordenação do supply chain da “maior empresa de outsourcing do mundo”, o que significa vencer 3.971 quilômetros entre o centro de distribuição e a cozinha para garantir alfaces frescas para o consumidor final. Esse é o desafio do McDonald’s para garantir a oferta de sanduíches em Manaus, com produtos enviados de São Paulo. “Nosso negócio não é produzir nada, nem ter estoque nos restaurantes. Nosso negócio é vender comida em restaurantes de serviço rápido, por um preço justo e em ambientes reconhecidos pela limpeza. Por isso compramos tudo de outras empresas, inclusive a distribuição de ingredientes e embalagens para as franquias”, explica ele.

Foi a instalação da rede de fast-food no Brasil que motivou a abertura de uma unidade da empresa de logística Martin-Brower no País. “A operação logística necessária para garantir que todos os produtos estejam nos restaurantes nas quantidades adequadas para não faltar, nem formar estoques, é complexa. Por isso desenvolvemos com o nosso parceiro uma tecnologia de caminhões com três temperaturas, para que em uma só entrega a loja receba tudo o que precisa, da embalagem ao congelado”, disse ele.

Transferência e aprimoramento de tecnologia são também marcas do processo de terceirização da intralogística na unidade Aracruz da Fibria, no Espírito Santo. A empresa, que cultiva parte das florestas usadas, deixou de transportar a madeira para a produção de celulose por conta própria há 16 anos, quando transferiu o conhecimento técnico adquirido para três parceiros logísticos. “A relação entre a indústria e o prestador de serviços de intralogística precisa ser de muita transparência e confiança, para que se encontre sempre a melhor alternativa e, muitas vezes, a solução de um problema passa também por uma mudança interna de processos”, afirma o gerente de Logística Florestal, Ézio Tadeu Lopes.

A unidade da Fibria recebe diariamente 24.500 m3 de madeira por rodovia (70%), ferrovia (25%) e hidrovia (5%). Cada modal é administrado por uma empresa diferente. Um cenário já distante daquele da década de 1990, dominado pelo transporte rodoviário em caminhões de grande porte e com participação da ferrovia. Mas o arranjo segue mudando. Lopes explica que a empresa realiza, em conjunto com o operador logístico e com a indústria automobilística, estudos para reduzir a tara dos caminhões, com a adoção de novas técnicas construtivas e com a utilização de materiais mais leves.

Também está sofrendo alteração o processo usado no terminal marítimo Portocel (Barra do Riacho, ES). O objetivo é fazer com que o descarregamento das barcaças se torne mais rápido e que um volume maior de madeira possa ser transportado. “Apostamos muito na navegação de cabotagem, pela redução expressiva da emissão de poluentes e por retirar caminhões das estradas, o que torna o trânsito mais seguro. Embora a Fibria tenha uma participação acionária na operação do porto, o Portocel é visto pela indústria como um fornecedor”, afirma Lopes.

FONTE: http://jcrs.uol.com.br/site/noticia.php?codn=71094&fonte=nw

 

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