Eleições no Peru: O desafio social do modelo asiático

Próximo do segundo turno às eleições presidenciais, o Peru vive um momento positivo em sua economia, sendo considerado um dos sucessos da América Latina. Confira algumas indicações a respeito,
 
 
Autor(es): Humberto Saccomandi
Valor Econômico – 26/05/2011
 

Pedro Pablo Kuczynski é uma das mentes por trás do milagre econômico do Peru, que fez do país um dos principais casos de sucesso da América Latina na última década. Curiosamente, ele também é um dos protagonistas da maior ameaça a esse milagre: a falta de sensibilidade em relação a demandas da parcela mais pobre da população.

A receita econômica de Kuczynski, conhecido no Peru como PPK, é simples: emular o modelo asiático. Nos últimos anos, o país manteve o câmbio competitivo e fez uma agressiva abertura de sua economia (tem acordo comercial até com a China). O Peru não em ambições de proteger setores industriais; sua tarifa média de importação é de 2%. O país compra onde custar menos, o que barateia os investimentos. A maioria dos carros e ônibus vem da Ásia; similares brasileiros são mais caros.

Com o tempo e a melhora na competitividade, obtida com investimentos privados e públicos, vão se desenvolver setores nos quais o país tem vantagem comparativa. Isso já está ocorrendo. As exportações de produtos de maior valor agregado, como têxteis e frutas, cresceu cerca de 35% no primeiro trimestre deste ano. Enquanto esse processo de diversificação da economia se consolida, o país pode conter com a receita garantida da mineração.

Modelo importado da Ásia encontrou desafio local

O problema dessa equação é justamente… com o tempo.

No primeiro turno das eleições presidenciais do Peru, em abril, dos cinco principais candidatos, três representavam a continuidade do atual modelo econômico; e dois se apresentavam como antimodelo. Esses dois últimos, o esquerdista Ollanta Humala e a populista Keiko Fujimori, disputam o segundo turno no dia 5 de junho.

Um dos candidatos reprovados foi justamente PPK. Aos 72 anos, ele é certamente um dos economistas mais experientes da América Latina. Formado em Oxford, com mestrado em Princeton, PPK trabalhou no Banco Mundial, no FMI, foi diretor do BC peruano, ministro das Minas e Energia, ministro das Finanças por duas vezes e primeiro-ministro. Tem também um extensa carreira no setor privado: foi (e ainda é) gestor de vários fundos de private equity, inclusive alguns dos quais é sócio.

PPK recebeu o Valor em seu casa, no elegante bairro limenho de San Isidro. Aliás, para os paulistanos que acham a região da rua Oscar Freire ou o Itaim o máximo do luxo e da modernidade, um passeio por San Isidro abalaria essa convicção.

Como pode um país crescer 9% ao ano e ter seu modelo rejeitado pela eleitorado?

PPK tem duas explicações. A primeira é que houve uma dispersão do voto pró-modelo em três candidatos. Somados, esses três tiveram 44% dos votos, bem acima dos 31,7% de Humala e dos 23,5% de Keiko.

A segunda explicação é mais interessante. “Se a economia cresce 9%, com inflação baixíssima, de 2%, a expectativa das pessoas cresce 50%”, disse PPK. E o governo peruano acabou sendo tímido em atender essa expectativa. Criaram-se programas sociais, como o Juntos (versão local do Bolsa Família), mas eles nunca foram prioridade nos dez anos dos últimos dois governos, dos presidente Alejandro Toledo e Alan García. E foram mal geridos.

Não é à toa que tanto Humala como Keiko dizem se espelhar em Lula.

PPK reconhece esse descasamento entre a economia e a política no Peru. Mesmo assim, suas propostas de combate à pobreza são de longo prazo, principalmente projetos de infraestrutura. “Um programa de levar água para todos criaria segurança ambiental, bem-estar e uma quantidade de trabalho impressionante”, diz.

PPK raciocina como economista, não como político. Busca a melhor solução possível, que nem sempre é a mais viável politicamente. É possível que, daqui a dez anos, a população de baixa renda estivesse melhor com suas propostas do que com o gasto assistencialista dos programas sociais.

Mas como pedir para o eleitor pobre esperar dez anos, enquanto a parte mais rica da população enriquece a olhos vistos? Os países emergidos da Ásia, como a Coreia do Sul e Taiwan, não realizaram eleições até atingir um certo nível de desenvolvimento. A China ainda não permite eleições.

O modelo de desenvolvimento peruano importado da Ásia parece ter encontrado um desafio local: a demanda de curto prazo da população carente num país democrático.

PPK critica vários aspectos da política econômica brasileira. “A carga fiscal no Brasil é muito alta” diz ele. A receita tributária no Peru é de 15% do PIB, contra 36% no Brasil (o Peru, porém, complementa essa receita com royalties da exploração mineral). PPK que levar a arrecadação fiscal a 20%.

“É uma estupidez deixar que as moedas se valorizem”, diz ele. E cita o exemplo dos países asiáticos, que mantiveram o câmbio relativamente estável. O Peru teve uma das menores oscilações da região, com uma política agressiva de compra de dólares. “Basta comprar os dólares e esterilizá-los. Não é um problema. No Brasil, o câmbio foi de 3 a 1,60. nenhuma economia resiste a um choque assim.”

PPK acha que medidas de controle de capital podem ajudar, mas não é entusiasta. “É muito difícil controlar o capital.”

Questionado se comprar dólares não traria inflação, ele ironiza. “Não nunca economia aberta, como a do Peru. O Meirelles me perguntou uma vez como fazíamos para crescer mantendo a inflação tão baixa. É simples, é só abrir a economia. Uma chapa de aço custa 20% a menos aqui que no Brasil. Mas, se você quer ser protecionista, as suas opções se restringem.”

Humberto Saccomandi é editor de Internacional. Escreve mensalmente às quintas-feiras

Fonte: https://conteudoclippingmp.planejamento.gov.br/cadastros/noticias/2011/5/26/o-desafio-social-do-modelo-asiatico-do-peru

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