Novos horizontes para as vinícolas do Rio Grande do Sul

Marcelo Beledeli

JOÃO MATTOS/JC

Segundo o Ibravin, entre 2001 e 2011, o número de vinícolas no Estado cresceu 72%.
Segundo o Ibravin, entre 2001 e 2011, o número de vinícolas no Estado cresceu 72%.

Por duas décadas, as vinícolas gaúchas têm reclamado de dificuldades de comercialização do vinho produzido no Estado. O problema, que se iniciou nos anos 1990 com a abertura do mercado nacional aos importados, resulta de diversos fatores, como o câmbio baixo, incentivos fiscais aos produtos de outros países, altos custos de distribuição e de insumos, além da pesada carga de impostos. No entanto, apesar de todos esses obstáculos, o setor passa por uma forte expansão no Rio Grande do Sul, com novos investimentos e abertura de empresas.

Entre 2001 e 2011, segundo dados do Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin), o número de vinícolas no Rio Grande do Sul passou de 439 para 755, um crescimento de 72%. Além da proliferação de novas empresas, aquelas que já estavam estabelecidas no mercado fizeram grandes investimentos. Somente a Miolo Wine Group, líder no mercado nacional de vinhos finos, com cerca de 40% de market share, investiu R$ 120 milhões nos últimos 10 anos em expansão da produção, instalações, equipamentos e aquisições de mudas importadas. Isso possibilitou às empresas do grupo elaborar 12 milhões de litros de vinhos finos ao ano, além de possuir a maior área de vinhedos próprios no País, com 1.150 hectares. “O desafio é consolidar toda essa movimentação e manter os investimentos em atualização tecnológica e pesquisa”, destaca o diretor Antônio Miolo.

Entretanto, essa expansão do setor ocorreu em um período em que as vendas das empresas gaúchas diminuíram. Se em 2006 a comercialização de vinhos comuns e finos produzidos no Estado foi de 267 milhões de litros, em 2010 as vinícolas gaúchas registraram 233 milhões de litros vendidos, um decréscimo de 13%. A maior parte desse mercado foi perdido para os importados, beneficiados pelo câmbio favorável e pela elevação da renda média nas famílias na última década. Entre 2004 e 2010, as importações brasileiras de vinhos e espumantes subiram 92,5%, passando de 39,14 milhões de litros para 75,32.

De acordo com Júlio Fante, presidente do Ibravin, o paradoxo de expansão do setor em um cenário negativo para as vendas internas deve-se à necessidade das vinícolas brasileiras de investir na melhoria de seus produtos a fim de ter mais competitividade em relação aos vinhos importados. “É uma questão de sobrevivência: ou a empresa cresce e melhora sua qualidade ou o mercado acaba”, explica.

O enólogo Luciano Vian, presidente da Associação dos Produtores de Vinhos de Pinto Bandeira (Asprovinho), lembra que boa parte dos investimentos realizados pelas vinícolas brasileiras na última década teve origem na necessidade de superar a defasagem tecnológica em relação às empresas estrangeiras. “Muitas delas ainda tinham edifícios e equipamentos velhos, que precisaram ser renovados para que pudessem criar bebidas de melhor qualidade”, comenta.

Além disso, outro fator que impulsiona a tendência de expansão do setor apesar dos cenários negativos é a constatação do grande potencial do mercado brasileiro. Atualmente, o consumo anual de vinhos no País é de apenas dois litros per capita. A quantidade é irrisória diante do volume registrado em países como França e Itália (em torno de 50 litros per capita ao ano) ou mesmo da vizinha Argentina (20 litros anuais por pessoa).

No entanto, devido à grande população existente no País, isso também significa que o menor aumento no consumo tem um efeito enorme no volume total comercializado. “Se hoje os brasileiros passassem a beber 2,5 litros de vinho por ano, toda nossa produção nacional não teria como atender a maior demanda”, estima Vian. Diante dessa possibilidade, as empresas buscam crescer agora para garantir sua participação nesse mercado potencial.

Consumo de sucos e espumantes alavanca investimentos

Um dos fatores que contribuiu para manter o nível de investimentos do setor é a diversificação das bebidas. Segundo Henrique Benedetti, presidente da União Brasileira de Vitivinicultura (Uvibra), na última década houve uma forte migração para a produção de espumantes e, especialmente, de sucos de uva. “Há cinco anos tínhamos apenas duas empresas no Estado produzindo sucos concentrados, hoje já existe mais de uma dezena”, diz Benedetti.

As vendas dessas outras duas linhas de produtos demonstram que há de fato um crescimento no consumo. De 2006 a 2010, a comercialização de espumantes gaúchas teve uma elevação de 64,5%, passando de 7,6 milhões para 12,5 milhões de litros. Já os sucos, no mesmo período, tiveram suas vendas aumentadas de 16,6 milhões para 36,7 milhões de litros, um salto de 121%.

Essa tendência também foi verificada pela vinícola Perini, de Garibaldi. Em 2010, o crescimento geral da empresa foi de 23,5% em relação a 2009. No entanto, o maior destaque foi o suco de uva, que teve acréscimo de 40% no volume comercializado com as marcas Jota Pe e Perini. A comercialização de espumantes somou 30% de aumento no ano passado.

Benildo Perini, diretor-presidente da vinícola, diz que o suco de uva e os espumantes devem permaner em alta em 2011. Para este ano, a meta da empresa é obter um crescimento global de 20%. Cerca de R$ 9 milhões estão sendo investidos em uma nova planta produtiva em Farroupilha. A unidade, que vai elaborar vinhos, espumantes e suco de uva, deve estar pronta até o final do ano, aumentando a capacidade de envase em no mínimo 25%.

Na Vinícola Garibaldi, foram aplicados R$ 6,5 milhões em uma nova planta para sucos apenas em 2010, aumentando a capacidade produtiva de 1,5 milhão de litros para 8 milhões, além de novos tanques para a elaboração de espumantes. A reforma de um pavilhão e a compra de equipamentos de última geração mudarão completamente o processo de produção do suco de uva. Para este ano, devem ser elaborados 2 milhões de litros de suco de uva pela Garibaldi. O restante será ocupado com a produção de vinho.

Segundo o presidente da Garibaldi, Oscar Ló, a empresa investiu R$ 9,5 milhões nos últimos três anos. Para 2011, serão destinados R$ 1,5 milhão no parque industrial, recursos divididos entre a nova linha de engarrafamento para vinhos e sucos e a compra de tanques (autoclaves), próprios para fermentação de espumantes pelo método charmat.

A vinícola Salton destinará, em 2011, cerca de R$ 13 milhões para obras e equipamentos. Grande parte desses recursos vai para a instalação de uma nova linha de engarrafamento, que deve ser finalizada ainda em maio. O plano da Salton é deixar uma linha exclusiva para espumantes e frisantes e na outra todos os produtos que não dependem da gaseificação. Com isso, a empresa espera aumentar sua capacidade de produção entre 80% e 100%. “Assim teremos que investir em mais um pavilhão de estocagem e contratar mais pessoas”, destaca o diretor-presidente da empresa, Daniel Salton.

Região da Campanha se transforma em centro de vinhos finos

Além de diversificação de produtos, outra razão para a expansão do setor vinícola no Rio Grande do Sul durante a última década foi o avanço da atividade para novas áreas de cultivo. Se há apenas 10 anos atrás a vitivinicultura era imediatamente associada à Serra gaúcha, hoje a produção de uvas e vinhos finos se desloca cada vez mais para um território lembrado pelo gado e pelo arroz: a Metade Sul do Estado.

Introduzida na região da Campanha na década de 1970, a produção de uvas viníferas demorou para avançar nos pampas. Até o início dos anos 2000, a região tinha empreendimento de apenas duas vinícolas, a Almadén e a Santa Colina (hoje Nova Aliança), ambas em Santana do Livramento. No entanto, influenciados pelos produtos de grande qualidade obtidos por esses pioneiros e atraídos pela oferta de terras baratas e boas condições de solo e clima, empresários do setor vinícola buscaram expandir negócios ou abrir novas vinícolas na fronteira agrícola da uva.

Atualmente, a região abriga 16 vinícolas, segundo Afrânio Moraes, presidente da Associação dos Produtores de Vinhos Finos da Campanha Gaúcha. São 1,3 mil hectares plantados em nove municípios por 150 produtores, responsáveis por 15% da produção brasileira de uvas viníferas. “Produzimos 8 milhões de quilos por ano, mas esperamos chegar a 15 milhões de quilos em cinco anos”, afirma Moraes.

Uma das primeiras vinícolas a perceber o potencial da região foi a Miolo, que em 2000 adquiriu uma área de 200 hectares em Candiota, onde criou o Seival Estate, para onde foi transferida a produção de suas tradicionais linhas Reserva e Seleção. Os primeiros vinhos oriundos do projeto foram apresentados no ano passado. Em 2009, a companhia realizou a compra da Almadén, assumindo os 1,2 mil hectares da empresa. Com isso, possibilitou um novo ciclo de investimentos para a pioneira dos vinhos da Campanha. “Já foram aplicados R$ 2 milhões em maquinários e ano passado conseguimos realizar a primeira colheita mecanizada do Brasil numa área de 200 hectares, que deve ser expandida para 300 hectares até o ano que vem”, informa Moraes.

Os atrativos da Campanha também chamaram a atenção da Salton. Em 2010, a vinícola adquiriu 700 hectares em Santana do Livramento. Já foram plantados 30 hectares, cuja primeira colheita está programada para 2013. “Na Campanha temos solo adequado e clima favorável para produzir uvas extrema boas. Lá é o futuro do vinho de alta qualidade brasileiro”, declara Daniel Salton.

O plano da empresa é investir até R$ 5,5 milhões anuais até 2015 na propriedade, cultivando mais 100 hectares por ano. Até o ano que vem, a Salton deve continuar enviando sua produção de Santana do Livramento para ser processada na sede da empresa, em Bento Gonçalves. Mas a expectativa da empresa é iniciar a vinificação local em 2013.

Acompanhando a tendência de crescimento da região, novas empresas também estão surgindo. O produtor Adair Camponogara começou a plantar uvas em Dom Pedrito ainda na década de 1990, em parceria com a Almadén. Mas desde 2009 resolveu investir na produção própria de vinhos, criando a Vinícola Camponogara. “Investimos em torno de R$ 1,5 milhão para implantar a cantina”, informa.

O empreendimento lançará suas primeiras garrafas para o mercado no dia 31 de maio. Em sua propriedade, Camponogara planta 12 hectares, com uma produtividade média de 10 toneladas por hectare. Mas até 2012 o empresário espera expandir a área cultivada com parreirais para 20 hectares.

Novos empresários ingressam no ramo

Unir a paixão pelo vinho de alta qualidade com a possibilidade de obter lucros é o objetivo de vários empresários que investem no setor nos últimos anos. “Muitos investimentos que foram feitos recentemente têm seu capital oriundo de outras áreas, através de pessoas com boas condições financeiras, apreciadores de bons vinhos que viram a possibilidade de fazer disso um negócio”, explica Luciano Vian, presidente da Asprovinho.

Um exemplo é a Vinícola Ravanello, empreendimento que era um objetivo de Normélio Ravanello, executivo aposentado do grupo fabricante de máquinas agrícola AGCO, onde atuou por 37 anos. Há 25 anos, o empresário tem uma área de 2,5 hectares em Gramado, para onde se mudou após sua aposentadoria em 2007. Ali, instalou uma vinícola com capacidade de fabricar 60 mil litros.

Em 2011, a empresa produziu 43 mil litros de vinho, dos quais 25% foram feitos a partir de uvas colhidas no local. “O resto trazemos de vários lugares, como Itaqui, Vacaria, e Monte Carlo (SC)”, explica. O público-alvo da “vinícola-butique”, segundo Ravanello, são os visitantes da região de Gramado e Canela que querem aprender mais sobre vinhos. “Com o tempo, quando tivermos evoluído mais, pretendemos ter pontos de venda restritos em algumas capitais, para que esses turistas possam continuar adquirindo nosso produto”, comenta.

Outro empreendimento que busca espaço no mercado é a Vinícola Dunamis, criada pelo agropecuarista José
Antônio Peterle. Natural de Cotiporã, na Serra gaúcha, Peterle mudou-se para Dom Pedrito na década de 1980, onde iniciou uma bem-sucedida carreira como plantador de soja, arroz e criador de gado. A implantação de vinhedos se iniciou apenas em 2002. “Os parreirais faziam parte de um plano de diversificação de negócios”, explica o diretor-executivo da empresa, Júlio César Kunz.

O lançamento dos primeiros vinhos ocorreu em 2010. Atualmente, a Dunamis possui 15 hectares de parreirais para vinhos finos em Dom Pedrito e 10 hectares para espumantes em Cotiporã. Desde 2002, foram investidos R$ 5 milhões no empreendimento. Outros R$ 5 milhões devem ser aplicados nos próximos anos. “Podemos chegar a uma produção de 300 mil garrafas por ano”, diz o diretor-executivo.

Em Encruzilhada do Sul, em 2009, o jurista e autor de livros de direito André Copetti fez uma sociedade com Antônio Czarnobay, que durante décadas foi enólogo-chefe da Vinícola Aurora, de Bento Gonçalves. Juntos, fundaram a Bodega Copetti & Czarnobay, que produz vinhos e espumantes a partir de uvas plantadas em uma propriedade de apenas 4,5 hectares. “Somos uma pequena cantina, de apenas 28 mil litros de capacidade, quase artesanal, mas com imensa preocupação com a qualidade”, afirma Czarnobay. O objetivo da empresa é vender seus produtos para lojas especializadas, delicatessens e restaurantes.

Fonte: http://jcrs.uol.com.br/site/noticia.php?codn=62799&fonte=news

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