Cuzco, o Umbigo do Mundo

De Haroldo Castro

Todo viajólogo tem sua lista de lugares preferidos. Quando interrogado, dou respostas vagas, pois não existe apenas um paraíso nesse planeta. Mas quando se trata de cidades preferidas, sempre regresso a Cuzco.
Minha relação com essa cidade empoleirada na cordilheira andina é forte. Foi em Cuzco que deixei de comer carne e comecei a praticar yoga. Lá descobri a força dos Andes. Fotografei suas pedras incaicas, a arte colonial espanhola e os desafios de sua vida moderna. Estava em Cuzco quando terroristas do Sendero Luminoso explodiram um trem de turistas, quando o papa João Paulo II vestiu um poncho pela primeira vez e quando militares do governo Morales Bermúdez espancaram estudantes.
Sentado em um banco da Plaza de Armas, coração palpitante da cidade, paro para refletir por que Cuzco me

enfeitiça tanto. A resposta está a minha frente. Cuzco atrai, como um ponto magnético, gente de todo o mundo, de todas as raças. Os cuzquenhos confirmam essa vocação e explicam que qusqu, em idioma quéchua, significa centro ou umbigo. A antiga capital incaica era – e continua sendo – um Umbigo do Mundo.
A Plaza de Armas é o coração de Cuzco e todas atividades importantes acontecem lá, até mesmo essa demonstração de força dos militares peruanos em 1978 (que parece não amedrontar as crianças quéchuas).
Cheguei a Cuzco pela primeira vez em março de 1978. Pretendia passar duas semanas e fiquei três meses. Quando consegui sair, deixei um filho: o restaurante vegetariano Pura Vida, no pátio colonial do Hotel Los Marqueses, que sobreviveu por uma década. Graças ao Pura Vida, provei variados pratos da culinária local e conheci os mercados cuzquenhos.
Sempre que retorno a Cuzco, faço questão de reviver determinados cerimoniais. Tomo café-da-manhã no Mercado São Pedro – em frente à estação do trem que sai para Machu Picchu – e me delicio com dois enormes copos de suco de cenoura. Caminho pelas estreitas ruelas em busca da geometria incaica e não me canso de rever a pedra dos doze ângulos, parte do muro do palácio Hatunrumiyoc. Entro no Convento de Santo Domingo, não para visitar o santuário católico, mas para desfrutar do Qoricancha, o Templo do Sol. No final do dia, subo em direção a Saqsayhuamán e, desde a igreja de San Cristobal, quase como um condor, observo a cidade majestosa que começa a brilhar com suas luzes alaranjadas.

Mascarados do festival Q’ollor Riti dançam durante uma festa na Plaza de Armas em Cuzco.
Minhas passagens por Cuzco me deram sempre a oportunidade de criar novos laços de amizade. Faustino Espinoza Navarro nasceu no início do século e, se estivesse vivo hoje, teria mais de 100 anos de idade. O velho sábio quéchua era um verdadeiro poço de conhecimento. Lembro-me das conversas que tivemos sobre as possíveis técnicas utilizadas pelos incas para cortar os enormes blocos de pedra. Nenhuma folha de papel e nem mesmo um fio de cabelo podem penetrar nas frestas entre duas pedras. O encaixe é perfeito. Mas os arqueólogos insistiam que tudo era produzido apenas com cinzel e mãos fortes.
“Os incas cortavam a pedra com se ela fosse um pedaço de manteiga”, dizia Don Faustino. “Eles usavam um ingrediente que amolecia a rocha”. Don Faustino esteve a ponto de descobrir a “receita” várias vezes, mas ele admitiu que nunca chegou a conhecer o mistério. “Um campesino disse que iria me levar a um lugar onde eu compreenderia o que os incas faziam. Como o local era longe da comunidade, marcamos encontro para o dia seguinte às 5 da manhã. Mas ele nunca apareceu e nunca mais pude encontrá-lo”. Don Faustino acreditava que essa poção fosse preparada com uma mistura de vegetais.
Don Faustino Espinoza canta uma oração ao Sol em quéchua e foi fundador da Academia do idioma Quéchua.
Gostoso era ouvi-lo articular o quéchua clássico, não o idioma popular, falado nos mercados andinos. Ama sua, ama llulla, ama qella, dizia ele como se estivesse declamando uma poesia. “Esse era o lema incaico, tão válido hoje como há 500 anos. Significa ‘não roube, não seja preguiçoso e não minta’. Bom seria se nossos governantes seguissem esses princípios”, lamentava.
Don Faustino foi o primeiro Inca moderno. “Nos anos 40, resolvi estudar as crônicas de Garcilaso de la Vega que descreviam a cerimônia incaica do Inti Raymi, a festa do sol. Inspirado, escrevi o roteiro do que passaria a ser o novo festival”. Em 1944, Faustino entrou em cena pela primeira vez como personagem principal. Seu porte nobre e voz profunda o fizeram guardar a função de Inca moderno durante 14 anos seguidos.
A festa moderna do Inti Raymi, em Saqsayhuamán, congrega, como a tradicional há cinco séculos, milhares de visitantes.

Assim como o Inti Raymi atual, o antigo festival do sol era realizado no dia 24 de junho, em Saqsayhuamán, a menos de um quilômetro da Plaza de Armas de Cuzco. Celebrava a entrada do inverno – momento que o sol está mais distante – e comemorava o retorno do astro, pronto para esquentar novamente a terra, marcando o início de um novo ano agrícola. O último evento a contar com a presença de um imperador Inca aconteceu em 1535. Graças à idéia de Don Faustino, o Inti Raymi voltou a ser o festival mais importante de Cuzco.
Cuzco não é uma cidade qualquer. Impossível sair de lá a mesma pessoa, sem sequer uma pequena transformação. Visitar o Umbigo do Mundo é como aceitar um convite para romper barreiras internas, ir além do nosso quotidiano racional e criar oportunidades únicas para empreender mudanças na alma. Como uma peregrinação, ir a Cuzco significa acolher um chamado direto do coração, o coração dos Andes.
A harmonia das cores e dos movimentos em uma dança cusquenha no Qoricancha, o Templo do Sol.
Uma nota sobre as fotos: uma destas 5 fotos acima foi dupla página de uma reportagem na revista francesa GEO, há algum tempo. Se você fosse o editor, qual das 5 teria escolhido?

Fonte: http://colunas.epoca.globo.com/viajologia/

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