O Brasil vive uma desindustrialização?

MUITO IMPORTANTE ESTA REPORTAGEM AO PENSARMOS EM NEGÓCIOS INTERNACIONAIS…”…

“O câmbio desvalorizado, que gera preocupações a industriais exportadores e aumenta importações de manufaturados, é o epicentro de um debate longe de consenso entre entidades setoriais e especialistas: o Brasil vive uma desindustrialização?
Números de produção e emprego aquecidos pelo crescimento interno esvaziam este risco. Por enquanto…” (COMUNELLO,2010).

Impacto da produção na economia divide setores
A montadora gaúcha de ônibus Marcopolo sempre foi uma grife da face made in Brazil da balança comercial. E continua, só que 80% das unidades que a marca coloca no mercado internacional são feitas em oito fábricas situadas fora do Brasil e em três continentes – América, África e Ásia. Em vez de captar dólares vendendo os veículos, hoje a maior parte da fatura externa é gerada fora e depois nacionalizada. Com isso, 4 mil dos 14 mil empregados da companhia, que projeta receita líquida de R$ 2,8 bilhões em 2010, 30% acima da de 2009, movem as plantas do exterior. Um caso típico de exportação de empregos, mesmo que em família. Sem contar as vagas geradas nos fornecedores de peças e matérias-primas na Argentina, no México, na Colômbia, no Chile, na África do Sul, na Índia e no Egito.
Depois de 30 anos operando no mercado internacional, a montadora mudou sua estratégia, traduzida pela migração da produção, para não perder mercado ante um câmbio desvalorizado em até 20%. “O Brasil não é mais competitivo”, justifica o diretor de Relações com Investidores da montadora, Carlos Zignani.
A medida está no volume: a marca fabricará fora do País 9,5 mil dos 26,5 mil ônibus projetados para este ano. Mas nem assim a empresa evitou um recuo na fatia externa do negócio, que caiu de 45% para 30%. “A boa notícia é que estamos crescendo internamente. A alta do volume local será de 40% ante 30% do estrangeiro”, demarca o executivo, acrescentando que, devido ao real valorizado, aumentaram também as importações de peças e partes dos veículos, do aço à calefação.
O percurso da Marcopolo é música para os ouvidos dos dirigentes da corporação que representa o maior PIB nacional. A Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp) é a capitã do time que propaga a tese de um emagrecimento danoso da base manufatureira brasileira, confirmada por perda de exportação, redução da cota local na composição de bens finais e por mercadorias que entram prontas para consumo das famílias. “Sofremos o efeito da trinca do diabo – juros e carga tributária elevados e câmbio em baixa”, ilustra o diretor do Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos (Depecon) da Fiesp, Paulo Francini, irredutível na tese da desindustrialização. “Ou interrupção precoce da industrialização”, reforça o dirigente, indicando que o setor de transformação reduziu seu espaço a 13% do produto nacional (dados de 2008) antes de esgotar seu potencial de elevação da renda per capita, acima de US$ 15 mil.
Francini cita o avanço das importações de eletroeletrônicos estrangeiros, que somaram US$ 22,4 bilhões de janeiro a agosto, gerando déficit de US$ 17,5 bilhões, e sustenta que já há fechamento de indústrias e ameaça de desaparecimento de setores. O diretor da Fiesp também refuta alegações de que mudanças no cálculo do PIB desde os anos de 1990 agravaram a redução do espaço da indústria, enquanto serviços e itens primários e extrativos ganharam fatia maior.
O economista da consultoria Tendências Bernardo Stuhlberger rejeita a tese da federação paulista e avisa que não é privilégio brasileiro o recuo do setor. “É natural que países em desenvolvimento passem a estágio com maior fatia do PIB em serviços. É efeito da renda”, associa Stuhlberger, encarando como normal consumidores buscarem importados em vez de mercadorias nacionais ante maior fluxo. O economista da Tendências acredita que a realidade cambial não deve se alterar e que a atração de investimentos produtivos se eleva. “Segmentos que sofrem mais terão de se mexer”, previne, cobrando mais pressão dos industriais para atacar a verdadeira culpada pelo problema – a carga tributária, vedete do Custo Brasil. Os números recentes da participação da indústria de transformação no valor agregado da economia nacional e gaúcha afastam, por enquanto, sintomas agudos de uma desindustrialização. A situação do emprego formal do setor não indicaria também maiores sobressaltos. A análise é do economista Roberto Rocha, da Fundação de Economia e Estatística (FEE). Rocha mostra que a indústria brasileira recuou de 15,52% do PIB do País em 2005, quando se acentuou a desvalorização cambial, para 13,3% em 2008. Já a gaúcha, saiu de 19,7% para 17,28% no mesmo período. Já o confronto com 1995 mostra perda de espaço nas duas dimensões, mas com retomadas, que coincidem com as crises.No mercado de trabalho, o comportamento indica estabilidade e reações opostas. Indústrias praticamente mantiveram espaço – passando de 18,41% em 2005 para 18,07% há dois anos. No Rio Grande do Sul, houve crescimento de vagas no setor, saindo de 22,89% para 23,92%. Rocha explica que a trajetória até 2008 permite comparação entre dados consolidados de produção e emprego. Para o economista, o quadro não assinala que há setores com maiores perdas e reflete o aquecimento do consumo interno. “Para as empresas, estrategicamente é melhor olhar para a economia local”, avalia.
O chefe do Centro de Crescimento Econômico do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV), Samuel de Abreu Pessoa, enquadra a redução de espaço industrial nos movimentos mundiais e cita que a evolução do investimento fixo recente descarta evidências de redução do fôlego manufatureiro: a indústria de transformação aumentou de 14,4%, em 1996, para 18,5% a fatia na formação bruta de capital fixo total (FBCF). Mas Pessoa adverte que é necessário melhor exame do impacto do avanço chinês dentro do País e de déficits externos em alta, que já acendem a luz amarela do governo. “Até 2008 não havia evidência de desindustrialização no Brasil. Será que a valorização recente da moeda e o efeito China podem ter deslanchado este processo indesejável?”
A Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) faz coro à Fiesp. Mario Bernardini, diretor de economia da entidade, cita que desde 2008 o segmento passou de mais de 30% da produção para 20% de exportações e recuou de quinto para 14º lugar entre produtores mundiais. Já importações subiram 40%. Por ano, a queda implica US$ 10 bilhões a menos na divisa externa. Mesmo o crescimento em 2010 do setor não arrefece os prognósticos. “O primeiro semestre registrou alta de 15% sobre 2009, mas ainda está 10% abaixo de 2008”, contrasta o assessor. A Abimaq propõe como saídas aumento da alíquota do Imposto de Importação, de 14% para 35%, readequação do câmbio e juros menores. Ante expedientes como compra de dólares pelo Banco Central para impedir novas quedas da moeda, Bernardini ironiza: “O BC enxuga gelo com toalha quente”.
A Confederação Nacional da Indústria (CNI) adota postura mais cautelosa, admite dificuldades, mas não se rende à tese de esvaziamento do setor. “Não vemos um processo tão alarmante”, opina o diretor de Operações da CNI, Rafael Lucchesi, admitindo que a disputa por mercado é cada vez mais difícil com o dólar em R$ 1,71 ou menos. Lucchesi defende ajustes na política cambial, mas combinados a incentivos para maior competitividade. O setor produtivo dá exemplo como o recém-criado Movimento Empresarial de Inovação (MEI). O diretor da CNI aponta fragilidades, reforçadas pelo ranking 2010-2011 de competitividade do Fórum Econômico Mundial. O Brasil tem a 11ª produção industrial do mundo, mas ocupa a 111ª posição em ambiente macroeconômico, que engloba câmbio e juros. “Temos um grande mercado consumidor, mas sem consolidar a plataforma de manufaturas, corremos risco de perder espaço para quem vem de fora.”

Demanda por commodities segue em alta

Com preços e demanda mundial em alta, as commodities brasileiras garantem saldo positivo na balança comercial e demarcam ainda mais a perda de espaço de itens manufaturados. Também alimentam a tese da primarização da agenda externa, que não chega a ser temida por especialistas. A cautela é assinalada para o risco de uma contaminação pela chamada doença holandesa, diagnosticada na história recente em países que fizeram das fartas reservas de petróleo fonte de divisas em dólares para financiar importação de bens industrializados. Neste caso, o canal de preocupação é o potencial da camada pré-sal, que movimentará somente na capitalização cifra estimada em mais de US$ 120 bilhões, boa parte do exterior.
“Temos diversidade de produtos e muita tecnologia embarcada nas nossas commodities”, qualifica o chefe do Centro de Crescimento Econômico do Ibre (FGV), Samuel de Abreu Pessoa. “O País é muito bem dotado de produtos naturais e a demanda se manterá”, previne.
O ex-ministro da Agricultura e integrante do Conselho de Administração do JBS, um dos maiores players mundiais do complexo de carnes, Marcus Vinicius Pratini de Moraes, concorda e carimba que o consumo mundial de alimentos deve crescer geometricamente, impulsionado pelo novo potencial de renda de regiões emergentes. Pratini de Moraes sugere que alterar o perfil dos itens primários, acoplando maior valor, pode amenizar o estigma aparentemente negativo da primarização.
O economista-chefe do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), Rogério César Souza, cita que não é ruim a ascensão das commodities, o que não é bom desprestigiar os industrializados. Souza lembra que o saldo da balança das mercadorias oriundas da indústria de transformação é negativo desde 2008 no primeiro semestre. Chegou a US$ 14 bilhões em 2010. O alerta do economista-chefe do Iedi se dirige à perda de espaço de itens com maior intensidade tecnológica. “Tem de fortalecer setores mais expostos, como máquinas e microeletrônica. Há certo pudor que taxa de câmbio não pode ser usada como política econômica”, questiona Souza. Uma potencial ameaça de doença holandesa com nova produção de reservas pode ser neutralizada com medidas já acionadas pelo governo, avalia o economista-chefe da Fundação de Estudos do Comércio Exterior (Funcex), Fernando Ribeiro. “Não temos evidência desse risco. O Fundo Soberano do Brasil (FSB) comprando dólares da venda do petróleo e o controle do marco regulatório podem mitigar danos. Mas só saberemos quando a produção começar.”
Economista aponta alta de importações bem acima da produção interna

O Brasil pode estar entrando na zona de risco de uma importação mais intensa, o que deve oferecer risco para a indústria já consolidada no País. O alerta é da pesquisadora do Núcleo de Produtos Estatísticos da Fundação de Economia e Estatística (FEE) Cecília Rutkoski Hoff, que analisou a trajetória das compras externas desde o começo dos anos 2000. A especialista encontrou um crescimento muito superior ao da produção industrial desde final de 2008 que se intensificou desde a metade de 2009. A produção industrial avançou 8,4% até julho passado, frente a 12 meses antes, enquanto as importações, 42,5%. Segundo Cecília, a importação de itens como bens de capitais e máquinas precisa ser olhada também como canal de alavancagem da competitividade interna. A fabricante de silos e transportadores de grãos Kepler Weber adota a tática para o aço, responsável por 60% do preço dos produtos. “Intensificamos a importação desde 2008, no pós-crise. A matéria-prima nacional é 20% mais cara”, contrasta o superintendente comercial da Kepler, Tadeu Vino, que aponta como adversidades na disputa externa custos em reais, como mão de obra, e dificuldades para compensar créditos de impostos com exportação.

Fonte: Adaptado de COMUNELLO, Patrícia. Impacto da produção na economia divide setores. Jornal do Comércio, Edição impressa de 27/09/2010. Disponível em: http://jcrs.uol.com.br/site/noticia.php?codn=41348&codp=253&codni=3 acesso em 27/09/2010.

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